No Seu Pescoço: Chimamanda Adichie e seus rabiscos literários

Chimamanda Ngozi Adichie é um fenômeno da literatura do século XXI. A autora Nigeriana lançou seu primeiro romance, “Hibisco Roxo”, em 2003 aos 26 anos. Desde então, têm se tornado uma proeminente voz da literatura mundial. No crescer da era digital, questiona-se sobre o futuro da autoria e também da própria narrativa. Todos os seres humanos que tem acesso à conexão de internet, podem publicar algo e chegar a atrair milhões de visualizações. Com esse acesso do criador ao público, tudo vale, já que não há intermediários mercadológicos definindo os parâmetros daqueles que serão lidos e escutados, ou não serão. Isso também permite que a própria narrativa seja reinventada, para o bem ou para o mal. Adichie, no entanto, consegue driblar a bagunça do conteúdo digital e suas publicações são sólidas, modernas e complexas. Em No Seu Pescoço os temas recorrentes da obra da autora são consistentemente raça, feminismo e a cultura do continente Africano.

No Seu Pescoço é o terceiro livro e o primeiro de contos da escritora. Parece ser uma espécie de material no qual ela foi escrevendo ao longo de sua vida, incluindo antes e depois de se tornar uma escritora de renome internacional. Algumas histórias, como a que dá o título ao livro, “Jumping Monkey Hill” e o “O Tremor” podem se passar perfeitamente como completos relatos autobiográficos.  No último, ela faz menção ao que parece ser um grande amigo de infância que faleceu em um acidente de avião que ocorreu na Nigéria, fato que inicia a amizade presente no conto.

“Jumping Monkey Hill” não só conta com uma protagonista que também é escritora, como relata o abuso diário sofrido pelas mulheres, do qual Chimamanda costumeiramente fala tanto na ficção, quanto fora dela.  Seu nome talvez seja até mais conhecido por sua firme e bem esclarecida posição como feminista do que como autora. Em 2013, em um Ted Talk intitulado “Todos Devemos Ser Feministas”, a autora fez um belíssimo, profundo e extremamente realista discurso sobre feminismo. O vídeo do discurso viralizou e até a cantora Beyoncé usou trecho do discurso em sua música Flawless.

A força da ideologia de Adichie é engrandecida pela força de sua ficção, que força personagens a se contrastarem mesmo dentro de seus universos já isolados aos olhos do mundo Ocidental, como é o caso do conto “Uma Experiência Privada”, em que um atentado em uma cidade no interior da Nigéria força uma estudante da cidade grande a unir-se à uma camponesa religiosa em uma situação de ajuda mútua.  Ao longo do livro, ela também demonstra elasticidade em sua obra. Os contos “Fantasmas” e “Amanhã é tarde demais” fogem um pouco dos seus temas corriqueiros, focando-se mais em dramas pessoais.

É curioso pensar como a autora conseguiu construir a sua imagem. A sua liderança, sua confiança em si mesmo e seu conforto dentro de sua literatura mostram uma mulher que nada teme, ignorando falsas normatividades de gênero e o racismo institucionalizado. Talvez toda essa sua segurança tenha vindo justamente da sua condição de oprimida. Negra, Africana, feminista. Chimamanda tem todos os aspectos que são comumente alvos de ódio no dia-a-dia. Em cima disso, ela conseguiu criar um nome baseado no princípio de que “quem tem fama, deita na cama”. Ela já teria que lidar com preconceitos de qualquer maneira, então ao invés de tentar agradar seus agressores, ela decidiu ir a luta e utilizou-se de sua inteligência, da classe e da complexidade de sua literatura para tornar-se a exemplar voz que é hoje. No belíssimo conto “A historiadora obstinada”, ela descreve algumas gerações de uma família que culminam na história de uma mulher de origem africana que se torna uma sumidade intelectual. Talvez a história seja sobre a sua avó, a quem a escritora diz admirar muito, ou talvez seja uma previsão do seu próprio futuro. Um futuro que todo amante da literatura merece acompanhar de perto.

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