Pôster do filme Pantera Negra

Pantera Negra – Um Filme de Luta

Who need a hero? (hero)
You need a hero, look in the mirror, there go your hero

– Kendrick Lamar

Não sou o maior fã de filmes de super heróis. Não gosto muito da supremacia deles no mercado blockbuster. Nem acho legal a hegemonia desses filmes na a cultura mundial. Mas Pantera Negra consegue atingir pontos fundamentais sobre o que significa ser negro no mundo atual, traz isso de forma interessante em sua narrativa e consegue dialogar com um público amplo e heterogêneo.

Posso dizer que Pantera Negra mudou a forma como vejo minha conduta frente ao mundo. O que mais um filme poderia alcançar além disso: transformar quem assiste?

Neste texto não cabe nem abordar muito os aspectos técnicos do filme. Filmes da Marvel são bem feitos. O que impressiona é que o discurso de Pantera Negra chega onde muitos filmes não conseguem, até no meio do cinema “de arte.

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Super-Heróis salvando o Blockbuster

Nem lembro qual foi o último filme a ganhar grande repercussão sem ser de super-herói. Hoje só ouço ouvir falar na boca da galera sobre Capitão América, Thor, Batman, Coringa e etc, etc. Isso significa que a gente saiu de E o Vento Levou, Casablanca, passando por E.T. e Titanic para uma hegemonia de Marvel, DC e afins. Bem, se é o que o povo quer, tudo bem, né? Mas penso nas consequências disso.

Gosto da reflexão do André Barcinski sobre o tema.

Em resumo, podemos argumentar que, por mais divertido e bem construído que seja o filme, não significa que podemos tornar a cultura pop e geek nossa única referência de arte. Não são. Precisamos de mais do que isso. Eles são produtos de grandes empresas que investem milhões e faturam bilhões. Nas últimas décadas, o que mais vemos são Harry Potters, Frodos, Super-Homens assumindo o protagonismo da cultura mundial e ganhando até o ar cult.

E isso é uma pena, já que existem outros filmes com premissas muito mais edificantes para nós como sociedade. Quanta coisa poderíamos assistir para ampliar ainda mais nosso conhecimento sobre nós mesmos e sobre o outro! Mas a moda agora é esperar um filme de quadrinhos depois do outro. Porque a sociedade não quer mais ver nada sem ser Super-Herói? Porque os adultos de 40 anos e as crianças de 12 tem que ter as mesmas referências culturais?

Política e Representatividade

Entendo que muito da hype desses filmes é por causa do tom político e de questões de representatividade. Agora o filme que entretém também traz reflexões sociais. Espero que estejamos, sim, em uma nova fase onde lutamos contra as injustiças e os preconceitos. Mas o maistream tomar partido disso para mim é meio estranho.

A Disney e os grandes estúdios impunhando bandeiras “””liberais”””… Bem, estúdios cinematográficos são basicamente sub-empresas dos grandes bancos americanos. E a Disney sabe fazer um lobby com o como poucas empresas sabem, vide lei de direitos autorais, que impacta o mundo inteiro. Ou seja, elas estão do lado negro da força, não importa o que digam.

Pra mim, eles também estão usando essa nova mudança de mentalidade para vender ingresso, sem grandes preocupações com o resultado. Concluímos que a indústria cinematográfica é mais discurso do que prática quando reparamos em quem trabalha nesses filmes. Em geral, brancos e homens. Seja na frente ou atrás das câmeras, não observamos pluralidade.

Mas… E quando independentemente do real propósito, o discurso impacta profundamente no público? É aí que entra Pantera Negra.

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O Ponto Central

Eu nunca tinha me visto representado no cinema antes.

Eu até me identifico algumas emoções de alguns personagens. Mas é isso. Um envolvimento indireto.

Pantera Negra toca em pontos imprescindíveis sobre o que é ser negro. Tal qual nas alegorias do filme, eu realmente acho que, nas raízes dos povos negros possuem verdadeiras preciosidades culturais. Mas, aos olhos do mundo, a África é só miséria e precariedade. É isso que sempre falam. A África é sempre pintada como subdesenvolvida e digna de pena. E os negros, na maioria das vezes, são representados como pobres e ignorantes.

Agora na hora de copiar, sempre esquecem das influências dos povos africanos. No texto sobre o clip This is America, Bernardo Supranzetti explica bem isso.

Outro ponto muito forte que o filme traz é o fato de que a escravidão apagou quase toda a cultura africana. Os escravos não podiam ter sua fé. Não podiam ter sua cultura. Não podiam saber do seu passado. Eles tiveram que reconstituir toda uma cultura que a cada geração mais perdia suas referências e suasq matrizes africanas.

Ser negro hoje

E abordar esses tópicos faz de Pantera Negra um grande filme. Senti que realmente eu estava sendo colocado na tela. Senti as minhas dores individuais enquanto um afro descendente.

Eu não tenho a mínima ideia de onde meus antepassados negros vieram. E me dói pensar no sofrimento que eles enfretaram nessas terras hostis. Se hoje já é ruim, imagino 200 anos atrás. Enquanto isso, é tão prazeroso pensar nos antepassados europeus. Até dá vontade de ir em busca do passaporte italiano e ser bem aceito em qualquer lugar do mundo.

E o grande ponto do filme é esse: me mostrar que, enquanto negro, eu preciso mudar minha postura. Como cortaram os laços dos negros entre eles, nós já não nos identificamos como uma unidade. Muitas vezes nos vemos como estranhos. E cada vez ficamos mais sozinhos porque as outras pessoas não vão simplesmente nos incluir espontaneamente. Os ucranianos cuidam dos ucranianos. Os judeus dos judeus. Os franceses dos franceses. Enquanto isso cada negro cuida de si e não olha o outro com fraternidade.

Gosto de pensar e poder assumir minha parcela de proatividade para mudar esse cenário. Pantera Negra contribui nessa imagem. E isso não significa criar um favorecimento racial. E sim, valorizar o que já existe que eu sei que é culturalmente depreciado, mas tem um enorme valor no mundo.

Conclusão

Mesmo os puristas chatos tem que dar o braço a torcer quando o filme é relevante. A Marvel acertou na mão. Conseguiu trazer algo mais interessante à tona e que ainda entreter seu público fiel. Espero que realmente seja uma mudança de postura e represente uma mudança de mentalidade da indústria cinematográfica americana e não apenas uma hype.

Além disso, um outro grande destaque do filme foram as músicas produzidas por Kendrick Lamar. Facilmente All the Stars, Pray for Me e X foram algumas das melhores músicas de 2018.

Cola o pôster do 2Pac aí
Que tal?
Que cê diz?
Sente o negro drama
Vai
Tenta ser feliz

– Mano Brown

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