Sobre Ratos e Homens: uma relação conturbada

O clássico de John Steinbeck é uma reflexão sobre as relações do homem na sociedade. Essa reflexão se dá através do ponto de vista metafórico, já tratado no poema “Para um Rato”, de Robert Burns, de 1785. Sobre Homens e Ratos conta a emocionante e triste história de dois amigos que buscam um sonho que parece impossível.

A relação entre homens e ratos, sempre foi, digamos, conturbada. Tendemos a associar ratos a tudo que há de mais desprezível e ameaçador. Observando essa aversão por uma perspectiva mais panorâmica, no entanto, encontramos uma imagem patética. Homens são superiores à ratos na maioria dos quesitos: maiores, mais fortes, mais racionais, comunicam-se melhor. Apesar de serem mais rápidos, mais ágeis e possuírem a capacidade de escalar paredes, os ratos estão perfeitamente cientes de que nós, homens, temos a vantagem nesse eventual confronto. Então, segue a dúvida, qual o porquê de tal aversão? Talvez o porquê seja simplesmente ignorância. Porém, ignorância é uma via de duas mãos. Lenny, o personagem central da obra de Sobre Ratos e Homens, vive imerso em ignorância. Suas limitações mentais, o fazem ser um personagem submisso, incapaz de tomar decisões e cuidar de si mesmo. É uma criança presa dentro do corpo de um gigante, cuja falta de conhecimento e controle das limitações e do corpo geram justamente os atritos narrativos que levam George, o fiel amigo, irmão, pai, mãe – tudo ao mesmo tempo – a tomar a atitude arrebatadora que toma na conclusão da obra.

Todavia, a ignorância de Lenny não é a única ignorância consistente dentro do enredo. A própria temática da ignorância sobre a relação do homem para com o rato é a metáfora que perdura da relação do homem para com o próprio homem. Questão essa que já havia sido tratada no poema que inspirou Steinbeck a escrever Sobre Ratos e Homens, o poema “Para um Rato”, de Robert Burns, poeta escocês, que escreveu tal poema em 1785. O poema de Burns é direto, dizendo aos ratos:

Lamento que o domínio do homem

tenha rompido a união social da Natureza

e justifique o mau conceito

que te fez recear-me,

ó pobre companheiro, terrestre

e mortal, meu semelhante.

 

Em 100 páginas, Steinbeck faz um recorte da etapa final da jornada de George e Lenny, andarilhos típicos da Depressão norte-americana dos anos 1930, uma das temáticas principais do célebre escritor. A dupla é liderada pelo bondoso George, que é uma figura comum no universo Steinbeckiano, um personagem carismático que está sempre disposto a buscar o melhor pela sua comunidade e a lutar contra as injustiças sociais escancaradas pela Depressão. Esse perfil de personagem é mais discutido na crítica de “As Vinhas da Ira”.

George tem um sonho, uma espécie de American Dream antes do comercial de margarina: quer ter sua própria casa, aonde ele e Lenny possam morar tranquilamente, plantar e caçar sua própria comida, sem ter que viver como nômades em busca de migalhas dadas por chefes gananciosos. A força do companheirismo e da relação fraternal que ele tem perante à Lenny é ainda mais reforçada nos momentos em que ele perde a paciência com o gigante abobalhado. “Minha vida seria diferente sem você”, ele diz a Lenny, sabendo que a presença do amigo em sua vida não é de toda forma um peso. Emocionalmente, a responsabilidade por Lenny o estabelece, ainda que inconscientemente, como um homem de família mesmo sem ter uma família. E racionalmente, ele tem controle sobre os ganhos de grandalhão, que é um exímio trabalhador, e justamente graças à junção das duas rendas é que o seu sonho se faz possível.

Nenhum outro andarilho da época da Depressão sequer sonhava em ter seu próprio espaço e não ter que precisar trabalhar para ninguém, como eles constatam. Em um país destruído economicamente, castigado ainda pelo desastre natural da Dust Bowl, migrantes locomovem-se de um estado para o outro em busca de trabalhos quase escravos, morrendo pelo caminho, tornando-se odiados, vistos como ameaças. Homens, tornam-se ratos. Continua Robert Burns, na estrofe em que se dá o nome ao livro de Steinbeck:

 

Mas, rato, não és o único

a ser atraiçoado pela previsão.

O melhor projeto, sobre ratos e homens,

muitas vezes falha,

apenas deixando dor e sofrimento,

em vez do prazer prometido.

 

A capa do livro de Steinbeck

Um aspecto comum da demonização de outros seres é apontar para atos que os mesmos fazem, atos esses muitas vezes forçados pela condição que os demonizadores os provocam a se encontrar. “Ratos vivem na sujeira e carregam doenças”. Ratos que vivem nos esgotos urbanos das grandes cidades, longe de seu habitat natural, de fato carregam sujeira e doenças. No caso de Sobre Ratos e Homens, esses atos se dão em diferentes formas. Assustado, Lenny agride o filho do Patrão que o persegue sem motivos. O cachorro do velho Candy, pelo cheiro de sua velhice, é sacrificado. O sacrifício, um tema recorrente na narrativa, é outro ato que leva à um julgamento de valores. A falta de reação de Candy quando seu cachorro é sacrificado é precisamente um aspecto desse julgamento. Mas Candy sabia que aquilo era o fim do seu cachorro e ele, na sua velhice, já estava cansado de sacrifícios.

Disposto a se unir à George e Lenny em seus sonhos de ter sua própria casa, ele os oferece participar na situação de moradia dos dois, o que com seus $350 tornaria o sonho possível. Quando a situação parecia encaminhada, Steinbeck ainda explora um outro personagem, Slim, o negro que dorme separado dos outros. Ele é inteligente, sensível e revoltado. Sua presença é analítica e ele avisa que Curley, o filho do Chefe, é um homem perigoso, assim como sua confusa esposa.

A atração de Lenny pela moça é a tragédia anunciada. E, assim como um rato assustado e desesperado pode correr em direção ao perigo, Lenny entrega-se. A morte acidental da moça é o seu fim, e quando todos decidem linchá-lo, só resta a George, que já sabe que seu sonho nuca será realizado, fazer aquilo que Candy deixou ser feito com seu cachorro. Lenny não se incomodava com ratos. Não os via como inimigos, pelo contrário. Dentro de sua ignorância, a ignorância do homem perante ao rato não existia. Talvez, quando a ignorância é confrontada contra si mesma, não haja vitoriosos. Lenny não percebeu que George o sacrificaria. E a George só restaria continuar migrando, sem rumo, sem Lenny.

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