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Chernobyl: Por que essa minissérie é tão boa?

A minissérie Chernobyl chega ao seu fim na próxima sexta-feira, dia 7 de junho

Com o fim de Game of Thrones, várias pessoas cancelaram suas contas na HBO GO, mas muitos se mantiveram fiéis ao canal por causa de Chernobyl, uma minissérie em cinco episódios que está gerando excelentes comentários de quem assiste. É tanto elogio que ela já desbancou títulos como Breaking Bad, Band of Brothers e o próprio Game of Thrones na classificação do IMDb.

Mas por que Chernobyl é tão boa?

No artigo de hoje, vamos listar três tópicos que fazem esta minissérie entrar no hall das grandes produções televisivas.

Fidelidade Histórica

O acidente na Usina Nuclear de Chernobyl até hoje é um tema um tanto quanto obscuro. As causas para o acidente já foram comprovadas, mas o que a minissérie tenta mostrar são as razões por trás dessas causas já conhecidas.

O desastre aconteceu no dia 26 de abril de 1986 na região da atual Ucrânia, na época, União Soviética. A explosão pode ser considerada o começo do fim da URSS, mas quando ela ocorreu, a Guerra Fria ainda vivia seus dias de glória.

Por causa disso, muita coisa sobre o acidente em Chernobyl foi encoberto pelo governo soviético, já que a década de 80 foi o período que diversas usinas nucleares surgiram no mundo, principalmente nos Estados Unidos. E para não parecer fraco perante o grande rival, informações valiosas não foram divulgadas nem para os responsáveis por resolver os problemas que o acidente ocasionou.

Chernobyl Image
Reprodução © HBO

É sobre isso que Chernobyl trata. Além de mostrar as terríveis consequências do desastre na vida de pessoas comuns, também é apresentado o lado político desta fatalidade. E agora, restando apenas um episódio para terminar a minissérie, a pergunta que fica é: será mesmo que foi uma fatalidade?

E para sermos transferidos para período único, Chernobyl se destaca por reproduzir fielmente os costumes, as roupas, o cenário e claro, a própria usina.

Este é o grande ponto de destaque da minissérie, algo que está sendo valorizado pelos próprios russos que estão acompanhando Chernobyl na antiga União Soviética. A escritora bielorrussa, Alena KH, que tinha quatro anos quando ocorreu a explosão e vivia a apenas 100km de distância da Usina Nuclear, relata que:

“Muito bem ambientada e narrada, especialmente no aspecto político. As pessoas eram tão cultas como confiantes.”

Ainda nesta mesma matéria, Alena fala que existe apenas um aspecto que incomoda os russos, que é o fato da cidade de Pripyat – criada para atender aos funcionários da Usina de Chernobyl – era majoritariamente habitada por jovens e não por pessoas mais velhas e era um símbolo de prosperidade na União Soviética, exibindo vestimentas modernas e tecnologias de última geração vindos de fora da cortina de ferro.

Mas Pripyat é fielmente reproduzida em Chernobyl, isso porque os produtores tiveram um enorme cuidado para tratar desta tragédia com a maior veracidade possível, pela razão que muitos que sofreram com este acidente ainda estão vivos.

Como é o caso de Lyudmilla Ignatenko, uma das protagonistas da minissérie e que hoje vive em condições precárias, cuidando de um dos seus filhos deficiente.

Reprodução © HBO

Por outro lado, existem pessoas que não querem assistir a série justamente por causa de sua fidelidade histórica, como é o caso de Vladimir Veytsman, padrasto da jornalista Slava Malamud, que relatou que seu padrasto negou a assistir Chernobyl: “Eu estava lá e não quero assistir isso mais.” No Twitter, Malamud elogia a minissérie por sua exatidão:

Veytsman fazia parte do exército soviético na época e sua função era deixar o que ocorria em Chernobyl o mais discreto possível.

As Pessoas

Talvez este seja o elemento que fez as notas de Chernobyl crescerem no IMDb. Já vimos muito conteúdo histórico na TV ou no cinema, por mais fiel historicamente que a minissérie seja, ela não é apenas sobre isso.

Não basta mostrar a explosão, não basta mostrar os erros feitos pelos operadores da Usina, não basta mostrar como o governo soviético lidou com a situação. O acidente só se transforma em tragédia por causa das pessoas.

Chernobyl nos mostra as terríveis consequências de um acidente nuclear e o que o excesso de radioatividade pode fazer com o ser-humano. E é isso que nos dá a constante sensação de incômodo que a minissérie nos passa. Assistir Chernobyl não é fácil porque nos colocamos no lugar daquelas pessoas.

Chernobyl Hand
Reprodução © HBO

Visualmente pode ser terrível para alguns ver como o corpo se degrada em exposição ao material expelido pela explosão nuclear. Porém, o que está por trás daquele corpo é uma história, é uma família, é a inconsequência de um Estado. Por isso, a cena que mostra como eram feitos os enterros dos infectados pela radioatividade talvez seja a que nos comove profundamente.

E para nos transmitirem essa sensação, os atores fazem um trabalho excelente. O protagonista é interpretado por Jared Harris (de Mad Men e The Crown) e suas expressões são demonstrações do que o público sente ao ver Chernobyl.

Emily Watson interpreta uma das poucas personagens que não existem na vida real, a pesquisadora Ulana Khomyuk. E também temos Stellan Skarsgard como Boris Shcherbina, o responsável por gerenciar a crise em Chernobyl.

Mas não são eles quem carregam a minissérie, mas sim as quase 200 mil pessoas que atuaram diretamente para que a Usina Nuclear de Chernobyl não causasse mais problemas. Eles são os verdadeiros heróis, a minissérie é sobre eles e para eles. E é isso que você vai assistir.

Chernobyl bombeiro
Reprodução © HBO

Direção

A direção e produção de Chernobyl será premiada no próximo Emmy. Posso dizer isso com convicção já que é por causa dessas pessoas que esta minissérie está sendo tratada com tantos elogios.

Uma das cenas que mais me tocou até agora foi a da limpeza do telhado da Usina, que está no quarto episódio. Ela apresenta esses três elementos que destaquei neste artigo de maneira primorosa. Para poder continuar a contenção da radiação em Chernobyl, foi necessário limpar o excesso de grafite radioativo que estava no teto do reator 4 da Usina.

Como esse material era extremamente radioativo, primeiro foi pensado em usar robôs para fazer esta limpeza. Porém, eles se mostraram ineficientes porque ao posicionar as máquinas no telhado, elas já estragavam por causa da quantidade de material radioativo no local.

A solução? Enviar pessoas para fazerem esta limpeza. Porém, para a radioatividade não causar danos mais graves aos seres humanos, quem limparia não poderia ficar mais do que um minuto e meio no telhado da Usina de Chernobyl.

Chernobyl Clean
Reprodução © HBO

A cena que mostra este trabalho é toda em plano sequência, contabilizando os preciosos 90 segundos de exposição ao material radioativo. A tensão é constante.

E pesquisando sobre o tema para escrever este artigo, encontrei este vídeo que fez meu queixo cair. Quando você terminar de assistir o quarto episódio, não deixe de vê-lo, para também perceber tamanha semelhança que foi feita em Chernobyl:

Os efeitos sonoros também é algo que valem ser ressaltados. O constante barulho do medidor de radioatividade é como se fosse um pernilongo que te incomoda durante a noite. Essa comparação não é pelo som que fazem, já que são totalmente diferentes, mas sim pelo incômodo causado. Ele aumenta a tensão e ainda nos transporta para aquele local, já que este som deveria ser recorrente na região atingida pelo acidente.

A mudança no tom de Chernobyl é evidente. Antes da evacuação de Pripyat, era tudo colorido. Após a evacuação, o cinza toma conta da minissérie. As escolhas de palhetas de cores específicas para cada personagem transmitem o sentimento daqueles que viveram de verdade a tragédia.

As escolhas de atores e de métodos de direção, fazem com que a história se destaque, dando um primor técnico a um conteúdo que toca o lado mais profundo das pessoas.

Conclusão

A conclusão de Chernobyl será na próxima sexta-feira, dia 7 de junho, às 22h na HBO. Assinantes da HBO GO podem assistir os episódios anteriores e também o episódio derradeiro a partir da sua data de estréia.

Entretanto, o que não está concluído é a radioatividade em Chernobyl, que terá seu plutônio morto apenas daqui 20 mil anos. A atual redoma que cobre a Usina irá proteger a região apenas por 100 anos e deverá ser trocada rapidamente no final desse período.

A situação poderia ter sido pior se não fosse por essas pessoas que se sacrificaram para o bem maior, pela vida da maioria. Essa é a grande mensagem que Chernobyl passa e é nela que devemos nos inspirar para voltarmos a pensar nas decisões que são tomadas pelos Estados. Quem está no governo, governa para si ou para o povo?

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