Como visitar museus de arte nas grandes capitais do mundo

Para você que é amante de arte como eu, ao visitar alguma cidade turística a primeira coisa que é pesquisada para colocar no roteiro são os museus. Porém, vemos listas enormes de opções e a pergunta que fica é: por onde começar?

Quando estava realizando o meu mestrado, meu orientador comentou comigo sobre como as grandes capitais dividiam seus acervos de arte pela cidade e seus museus. Como sabemos, toda a história da humanidade de alguma maneira está na Europa. Isso é consequência do imperialismo e da dominação europeia por séculos em diversas partes do globo. O continente não é só uma hegemonia econômica e política, mas também artística e tudo isso está conectado.

Voltando a conversa com meu orientador, ele estava me explicando que nessas cidades que possuem um vasto conjunto de obras geralmente divide seu acervo em três museus.

  1. Um museu que possui obras da antiguidade até o começo do século XVIII
  2. Um museu com obras do século XVIII e meados do século XX, a chamada arte moderna
  3. Um museu com obras mais recentes, denominada arte contemporânea que engloba parte do século XX até os dias atuais

Essa explicação me chamou a atenção e fui pesquisar, já que faria uma viagem para a Europa alguns meses depois e em seguida iria para Nova York. E o resultado desta pesquisa comprovou sua hipótese! De fato o acervo artístico destas grandes cidades eram divididos de acordo com o período que ela foi produzido. Ou seja, se eu quiser ver a completude da arte produzida pela humanidade eu vou ter que visitar três museus no mínimo desta cidade.

Vamos aos exemplos!

Paris

A cidade da luz é uma das mais visitadas do mundo e é também uma das que possui mais museus por habitante no mundo. Em 2016, os 63 principais museus da capital francesa receberam 68,5 milhões de visitantes, número que decaiu 8,4% em relação ao ano anterior.

Interior do Musée d'Orsay - © Bernardo Supranzetti - Todos os direitos reservados
Interior do Musée d’Orsay – © Bernardo Supranzetti – Todos os direitos reservados

Paris funciona nesta lógica. Os três principais museus da cidade englobam as obras de cada período. São eles:

  1. Musée du Louvre: abarca um dos acervos mais impressionantes do mundo. Quando o visitei fiquei impressionado com as diferentes exposições fixas que ele possui. Tem arte desde a América Pré-Colombiana, até arte antiga do islã, Japão, China, Roma Antiga, África, Oriente Médio, Grécia, Egito Antigo, Mesopotâmia e ainda muitos artefatos de quando o ser-humano estava no começo da criação de sua própria civilização. É daqueles museus que você tem que ir mais de uma vez para ver todas as suas obras. Além disso, por ser um dos museus mais visitados do mundo, a sua estrutura de guias, lanchonetes e serviços é uma das melhores que já vi.
  2. Musée d’Orsay: possui principalmente quadros e esculturas produzidas pelo ocidente entre os anos de 1848, ano do começo da Revolução Francesa e 1914, começo da Primeira Guerra Mundial. O prédio por si só é um motivo de visita. Localizado a beira do Rio Sena, próximo ao Louvre, o Museu d’Orsay era uma antiga estação de trem, por isso sua arquitetura é tão diferente dos outros museus da Europa. Boa parte das obras de Renoir, van Gogh, Cézanne e Monet estão neste local. Ou seja, a concentração de artistas impressionistas é espetacular. Uma visita ao d’Orsay é suficiente para abarcar 80% de toda a arte produzida pelo ocidente na referida época.
  3. Centre Pompidou: localizado também próximo ao Louvre, possui um vasto acervo de arte moderna e contemporânea. Foi também centro de diversas exposições importantes para a França na década de 70, como a que inaugurou o Centro em 1976 sobre a história do cinema. Sua arquitetura também chama a atenção, mas por motivos diferentes ao d’Orsay. O Centre Pompidou parece um prédio que está em obras visto de fora e seus característicos canos coloridos saindo de sua estrutura marcam a modernidade não apenas do que é exposto em seu interior, mas também na sua própria arquitetura.

Nova York

A capital cultural e econômica dos EUA coloca o país norte-americano na lista de países que possuem obras de arte de todo mundo. É óbvio que eles não iam ficar atrás da Europa…

Interior do Metropolitan © Bernardo Supranzetti - Todos os direitos reservados
Interior do Metropolitan © Bernardo Supranzetti – Todos os direitos reservados

Nova York também é uma das cidades que mais recebem turistas no mundo, além de ter muitas opções gastronômicas e de compras, possui bons museus e que também respeitam essa regra.

  1. The Metropolitan Museum of Art: localizado em uma das partes do Central Park, o “The Met”, como é conhecido por lá, é como um Louvre em Nova York. Possui obras de todos os cantos do mundo, que variam desde artefatos antigos até belíssimas esculturas e quadros de grandes artistas do ocidente. Quando visitei o museu em dezembro de 2017 me surpreendi com algo que o Louvre não possui. Apesar do museu da capital francesa ter uma enorme exposição do Egito Antigo, no Met há uma tumba inteira, vinda diretamente do país africano. É a Tumba de Perneb, datada de 2323 a.C., ou seja, uma tumba com mais de 4 mil anos de idade em perfeito estado para o visitante entrar e apreciar suas paredes pintadas.
  2. Whitney Museum of American Art: este é um museu que pertence ao Metropolitan e que possui artes feitas por norte-americanos entre os séculos XIX e XX. Diferentemente de Paris, o Met possui obras até o começo do século XX, de artistas como Picasso, Kadinsky, Monet, van Gogh, Cézanne e Renoir. Mas o Whitney Museum é um daqueles que vale a visita! Nele é possível entender o que foi produzido artisticamente pelos Estados Unidos durante um período que foi tão rico para as artes no ocidente.
  3. MoMA: o Museum of Modern Art de Nova York é um prédio que vendo de fora não damos nada. Mas por dentro sua arquitetura moderna já nos diz tudo sobre a arte que vamos encontrar em seu interior. O MoMA possui obras de períodos que o Met abarca, porém, as principais estão neste museu. A Persistência da Memória de Salvador Dalí, A Noite Estrelada de van Gogh, As Damas de Avignon de Pablo Picasso, o autorretrato de Frida Khalo são exemplos das grandes obras expostas no MoMA. Além disso, possui célebres obras modernas e contemporâneas, como o quadro número um de Jackson Pollock e as muitas imagens de Andy Warhol, incluindo a “Mona Lisa moderna”, a “Gold Marilyn Monroe. Também sempre há boas exposições temporárias de novos artistas que fazem a arte de nosso tempo.

Londres

Ainda não tive a oportunidade de visitar a capital britânica, acho que é apenas uma questão de tempo para a Rainha me convidar para um chá. Porém, esta capital não foge à regra que estamos tratando aqui neste texto.

Pedra de Roseta em exposição no British Museum - Reprodução
Pedra de Roseta em exposição no British Museum – Reprodução
  1. Museu Britânico: o British Museum é um dos maiores museus do mundo e possui cerca de 8 milhões de objetos em sua coleção. Assim como o Met e o Louvre, possui obra de toda a história da humanidade, desde a pré-história. Não possui tantas pinturas como os outros dois museus, tendo como foco do acervo objetos de relevância histórica de diversas civilizações. Porém, também possui quadros de van Gogh e principalmente de pintores ingleses do mesmo período, como James McNeill Whistler e John Constable, que são as obras mais “novas” abrigadas no museu. Suas principais obras são a Pedra de Roseta, essencial para as traduções de hieróglifos egípcios, um painel babilônico de Nabucodonosor II e diversas peças do Parthenon da Grécia Antiga. Inclusive, por possuir tamanha coleção, muitas peças de seu acervo são disputadas pelos países originais das obras, alegando que os britânicos roubaram todo esse material de suas nações.
  2. National Gallery: a Galeria Nacional de Londres possui uma coleção de mais de 2300 pinturas do século XIII ao começo do século XX. Se no Museu Britânico não há tantos quadros, é neste museu que você vai encontrar as principais obras produzidas durante a Idade Média e Renascimento. Esse museu poderia ser considerado uma pinacoteca, já que possui uma vasta coleção de imagens. Se você vai nesses dois museus, é possível abarcar boa parte do que foi produzido não apenas pelos britânicos, mas também pela humanidade até o século XX.
  3. Tate Modern: este é um museu que nem sempre está no roteiro, até porque sua inauguração foi no ano 2000, vários anos depois da criação de museus como o MoMA ou o Centre Pompidou. As margens do Rio Tâmisa, é possível ver o que é melhor produzido por artistas britânicos nos nossos dias. Além disso, é possível encontrar obras de Joan Miró, Picasso e Alberto Giacometti. A arquitetura também é uma exposição a parte. Instalado na antiga central elétrica de Bankside, o Tate Modern é um prédio que mistura o moderno com o antigo, refletindo a ambientação da própria cidade de Londres.

Buenos Aires

O caso na América Latina é um pouco diferente. Boa parte do que foi produzido em nosso continente está em exposição na Europa. Além disso, para os europeus a arte produzida aqui só é válida a partir do momento que eles chegaram na América. Por isso, muito dessa parte histórica dos museus latino-americanos são sobre a história do próprio país que o museu está localizado. É o caso de Buenos Aires.

Entrada do MALBA - Reprodução
Entrada do MALBA – Reprodução

A capital da Argentina é uma excelente opção de passeio internacional para os brasileiros. Além de muitas opções turísticas, também é uma capital com muitos museus. Listaremos aqui o que seria os museus porteños que representam essas três divisões que temos feito até agora.

  1. Museo Histórico Nacional: localizado no charmoso bairro de San Telmo, o Museu Histórico Nacional da Argentina conta com obras que representam a história do país a partir de sua colonização. Possui muitos objetos de figuras históricas como San Martín e Manuel Belgrano. Infelizmente o estado de conservação do museu não é o mesmo que podemos encontrar na Europa. Mas para quem é apreciador de história, vale a visita!
  2. Museo de Arte Latinoamericano de Bueno Aires: o MALBA é um dos principais museus da capital argentina. Inaugurado em 2001, possui as principais obras de artistas latino-americanos. Nele podemos encontrar a famosa Abaporú de Tarsila do Amaral, o Retrato de Ramón Gómez de la Serna de Diego Rivera e o Autorretrado con chungo y loro de Frida Khalo. O prédio do museu é uma atração à parte. Com uma característica bem moderna, abriga um acervo que representa a unidade americana e latina, tanto almejada por nós ao longo dos séculos. Este é um museu que deveria estar no roteiro de qualquer visitante à Buenos Aires.
  3. Museo de Arte Contemporáneo de Buenos Aires: o MACBA não é um museu tão conhecido pelos turistas, também não é tanto assim pelos próprios argentinos. Também localizado no bairro de San Telmo, este é um museu que abarca toda a arte produzida pelos argentinos nos dias de hoje. Também possui algumas obras do final do século passado e exposições itinerantes que vale a pena a visita independente da época que for passar por Buenos Aires.

E o Brasil?

Os museus no Brasil funcionam mais ou menos na mesma lógica que explicamos no tópico anterior sobre Buenos Aires. Existem muitos museus de arte no Brasil, não tanto quanto deveria, já que eles estão concentrados nas regiões sul e sudeste. São nessas localidades que podemos visitar bons museus, a maioria contando com acervos regionais ou nacionais.

Vale destacar o Museu de Arte de São Paulo, o MASP, que abriga obras de artistas europeus e brasileiros de diversas épocas. Sem a menor dúvida é o principal museu do Brasil já há alguns anos.

MASP © Bernardo Supranzetti - Todos os direitos reservados
MASP © Bernardo Supranzetti – Todos os direitos reservados

O Brasil poderia ter um acervo de artistas brasileiros impressionante. Muita arte boa foi produzida por nós. Mas por que obras de Tarsila do Amaral ou Cândido Portinari não estão no Brasil?

Para que os museus tenham a sua devida importância é necessário que eles tenham público e essa é a grande diferença do Brasil com os outros países. É necessário primeiro que o próprio brasileiro comece a valorizar a arte produzida por ele mesmo, que ele vá ao museu para se enxergar nas obras expostas. Em um segundo momento, é essencial que o turismo seja foco de investimento no país, que possa haver um incentivo do governo a tal prática e que o empresário brasileiro consiga ver nesta atividade uma forma de geração de renda e emprego.

Antes de visitar os principais museus na Europa e Estados Unidos, eu visitei museus no Brasil. Conheci os mais diversos museus em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Goiânia e claro, Belo Horizonte. Chegar com toda a carga de arte nacional em um museu como o do Louvre me fez valorizar ainda mais o que produzimos.

Podemos ter “menos tempo” de produção artística que os europeus, mas isso é uma opinião enviesada por eles mesmos. Os habitantes originais dessa terra muito produziu e muito fez para seus povos. Após a chegada dos portugueses, continuamos a criar muita arte de qualidade.

Nós já somos uma potência artística, só resta o brasileiro descobrir isso.

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