Esta crítica de Guava Island é mais um dos meus artigos sobre Donald Glover, talvez o artista mais influente de nossos tempos.

Guava Island pegou todos de surpresa. Pouco foi falado dele no seu período de produção, apenas alguns veículos da mídia informaram que Donald Glover e Rihanna estavam em um projeto secreto em Cuba.

Lançado no dia 13 de abril no Amazon Prime Video, o serviço de streaming de vídeos da Amazon, Guava Island era o tal projeto secreto dos dois. Um longa de 55 minutos que contavam com dois atores conhecidos da nova geração: Letitia Wright, a irmã super inteligente do Pantera Negra; e Nonso Anozie, Xaro Xhoan Daxos do Game of Thrones.

O filme estreou de forma gratuita na plataforma e já causou um “buzz” pela internet, com muitos dizendo que esta é a grande surpresa de 2019.

Deni
Reprodução

No final do ano passado, Glover lançou três musicas, uma em formato de single (This Is America) e duas (Summertime Magic e Feels Like Summer) em um EP, o Summer Pack. O que todo mundo imaginou? CD novo vem aí… Porém o que não sabíamos era que essas três músicas estariam presente em um longa produzido por Glover. Isto sim foi uma surpresa!

Em um primeiro momento assistindo Guava Island pensei que o longa era apenas uma “desculpa” para divulgar essas músicas, mas Donald Glover não faria isso com a gente. Quando terminei de ver o filme, estava convicto que iria escrever esta crítica.

O longa

Filmado inteiro em Super 8, Guava Island transmite um clima tropical dos anos 50, com muitas cores e uma umidade que nos faz sentir que estamos em Cuba junto com as personagens.

Hiro Murai é o diretor do longa e não é a primeira parceria de Glover com o japonês. Murai também dirigiu o genial videoclipe do This Is America, e vários episódios de Atlanta, série multipremiada criada por Glover. E sempre que os dois se juntam, surge algo novo, dessa vez foi Guava Island.

Guava Island Alley
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Ambos relataram que o filme “Cidade de Deus”, um clássico nacional, foi fonte de inspiração para gravar Guava Island. Não apenas por causa de umas tomadas que remetem claramente aquelas correrias nos becos das favelas cariocas, mas também por causa da imersão. Em muitas partes da ilha de Cuba, não havia sinal de internet e por isso, para saberem mais sobre o local e a cultura o melhor era interagir com os locais.

Isto é o que faz o filme passar uma certa naturalidade por parte dos atores. Logo no início, Glover passa correndo pela cidade interagindo com diversos locais e é disso que estou falando! Conhecendo o último EP lançando por Gambino, parece que ele até nasceu nesta tal Guava Island.

Guava Island Blue
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O que destaca tecnicamente no longa são dois aspectos: as cores e o roteiro. O primeiro envolve o cenário, paradisíaco como de qualquer ilha do Caribe. Além disso, a mistura das cores é destacada por causa da filmagem Super 8. O contraste entre azul e vermelho não está lá apenas para agradar aos nossos olhos, mas também para cumprir um papel importante para o roteiro. #NoSpoilers

O interessante é ver as diversas referências neste filme, como por exemplo as muitas de “Orfeu Negro”, longa de 1956 e algumas até do próprio Gambino, como uma das roupas vestidas por uma das personagens nos remeter à capa do seu último disco, “Awaken, My Love!”.

A crítica

Guava Island não é apenas uma apresentação diferente ou uma releitura dessas músicas lançadas no ano passado por Childish Gambino. Até porque novas canções foram apresentadas no longa… Um filme feito por Donald Glover não pode ser apenas isso.

O seu toque de midas envolve a famigerada crítica social. O roteiro de Guava Island envolve, de início ao fim nesses curtos 55 minutos de duração, assuntos que envolvem a exploração, o capitalismo e até a posição do artista perante a sociedade.

Esses e outros temas são abordados de maneira cômica, dramática e afetiva. A suavidade como é apresentado momentos duros fazem de Guava Island um filme leve, mas que transmite a sua mensagem crítica.

Guava Island Trees
Reprodução

É até complicado de escrever sobre esta parte porque vou manter a minha política de #NoSpoilers, até porque não precisa ser nenhum super crítico de cinema para entender o que Glover está transmitindo através de Guava Island.

O casal estrelado por Rihanna e Glover talvez seja o grande motivo para termos esta sensação ao assistir o filme. Os dois conseguiram passar como é o amor de um casal quando o relacionamento é leve e apaixonante. A maneira como eles interagem e se olham é o que traz este clima afetivo que citei ali atrás.

Donald Glover e a nossa geração

Muitos falam do “zeitgeist” ou o espírito do tempo, aquele fantasma que ronda a nossa época e que define o hoje como hoje. Donald Glover parece ter captado qual é o nosso “zeitgeist”.

Considera-lo um dos grandes artistas da atualidade é quase que óbvio, porém, as razões que o levam a ter esse posto é o fato dele ser um artista completo, que parece melhorar a cada lançamento que faz. Claro que todos estão sujeitos a cair, mas o que Glover tem mostrado até hoje que seu caminho é a ascensão.

Guava Island Childish Gambino
Reprodução

Não é sempre que surgem artistas tão completos, que escrevem, dirigem, atuam, cantam, dançam e ainda faz tudo isso com alta qualidade. Guava Island apresenta todas estas facetas de Donald Glover.

Além disso, a impressão que temos é que Glover captou o que representa a nossa geração, quais são os problemas que a nossa sociedade vive e ainda consegui transmitir isso de forma crítica e muitas vezes leve, para que todos possam entender.

Não é a primeira vez e nem parece que será a última que vamos falar sobre Glover no Descontexto. E é o que eu espero e desejo: uma vida longa para Donald Glover.

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