Jean Michel Basquiat: CCBB-SP apresenta mostra pertinente do artista americano

O CCBB-SP trouxe uma exposição importantíssima e assustadoramente pertinente. O público brasileiro, o mesmo que testemunhou nessa semana a execução da vereadora Marielle Franco, precisa mais do que nunca conhecer e experimentar a arte política, direta e guerrilheira de Jean Michel Basquiat. O artista é daquela geração de artistas modernos dos anos 1980 que misturaram arte moderna, com arte underground, com grafite e trataram de questões de raça, sexualidade, injustiças sociais, sociedade de consumo, etc. Da mesma geração, há nomes como Keith Haring, Andy Warhol, Francesco Clemente, entre outros. As obras de Basquiat, mesmo as em tela, reúnem referências ao grafite, com símbolos e escritas feitas à mão espalhadas pelo quadro, alguns com o advento de colagens e com diversidade de cores.

“Loin”, de 1982 (Reprodução)

Nascido no Brooklyn em 1960, de pai Haitiano e mãe Porto Riquenha, Basquiat era a receita perfeita para a arte de protesto: negro, filho de imigrantes, criado nos ares periféricos, gentrificados e artísticos do Brooklyn dos anos 60. O artista era familiarizadíssimo com opressão. No entanto, foi um incidente completamente aleatório que trouxe o objeto de maior simbolismo da obra de Basquiat. Quando ele tinha 7 anos, foi atropelado por um carro. Quebrou o braço e ficou traumatizado para sempre, como indica sua arte. A presença de tintas pretas, que simbolizariam graxa, e de carros na sua arte é comum. A palavra “tar”, que ele usa constantemente em sua obra, significa em português “Alcatrão”. Que é uma espécie de versão destilada de carvão vegetal e mineral. Ele também fazia referências à petróleo e a animais, como na obra “Loin”, em que ele faz referências a matança de animais e o próprio animal no centro do quadro é pintado de preto, como o alcatrão.

Basquiat passou a adolescência cercado pela cena cultural underground de Nova Iorque, aonde se encontrava o crescer dos grafiteiros e da música de protesto negra, com o hip-hop. Antes de ser notado pelos críticos de arte, Basquiat começou a chamar a atenção pelas ruas da Big Apple. O duo “SAMO©”, que era Basquiat e o grafiteiro Al Diaz, explorava os muros da cidade deixando sua arte de protesto e se fazendo presente em um mundo invisível para minorias. Quando SAMO chegou ao fim, Basquiat deu início à sua carreira solo. No entanto, o meio artístico era majoritariamente branco e Basquiat destacava-se como pioneiro. A presença da questão racial na sua obra – de novo o alcatrão – era uma constante. E justamente o que mais impressiona é capacidade de interligar vários temas do espaço que lhe servia. Parece que a tela era um universo infinito para o artista.

Black Man (Reprodução)

Outra referência sua era anatomia humana. Quando estava no hospital, depois de ter sido atropelado, seus pais lhe deram um exemplar de “Gray’s Anatomy”, o clássico livro sobre anatomia humana. O jovem Jean Michel ficou fascinado com aquelas figuras sobre o que passava internamente no corpo humano e isso acabou sendo uma das virtudes de sua arte. Em “Black Man”, o que se vê é a comprovação do que foi citado acima. Uma obra que lida com raça, como já está claro no próprio título, com uma releitura estilizada, ainda que detalhada, da anatomia humana. Por dentro, todos nós somos iguais.

Em 2014-15, a exposição “Keith Haring: The Political Line”, do Fine Arts Museum of San Francisco, mostrou a força política da obra deste artista. Haring e Basquiat, ambos da mesma geração, ambos Nova Iorquinos, ambos extremamente politizados e ambos completamente originais, eram algumas das forças da arte moderna e pop dos anos 1980. No entanto, eles não eram pioneiros como o criador de tal escola, Andy Warhol. Warhol estabeleceu sua fama ainda nos anos 1970. E ele sabia da força do movimento que popularizava. Através do maior empresário de arte moderna do século XX, o colecionador e mercador suíço Bruno Bischofberger, Warhol e Basquiat se conheceram. Bischofberger foi o responsável por levar a arte pop para a Europa.

“Thin Lips”, by Basquiat and Warhol, 1984 (Reprodução)

Warhol e Basquiat desenvolveram uma grande amizade. Os dois perceberam que tinham muito em comum, principalmente no que diz respeito às suas concepções artísticas. A amizade rendeu uma parceria artística, em 1985. Os dois apresentaram juntos 16 obras. O CCBB trouxe 3 delas. A melhor, para mim, é a que mais capta de fato a essência da arte de ambos sem que elas se atropelem. “Thin Lips”, tem os traços Warhonianos com a mensagem rasgadora de Basquiat. Uma bela obra de arte. A crítica, no entanto, dividiu-se. Muitos desgostaram das obras. A crítica de arte Vivien Raynor escreveu no New York Times que “…o comentário social de Basquiat, agora se torna óbvio e bobo. (…) a colaboração parece mais uma manipulação de Warhol (…), enquanto Basquiat nos parece apenas o acessório necessário”.

Madonna, que namorou Jean Michel Basquiat, disse certa vez sobre o artista, depois que ele faleceu, “Ele era frágil demais para esse mundo”.  Basquiat, então com apenas 25 anos, não soube lidar bem com as críticas da parceria com Warhol. Se distanciou do mentor e se focou na própria arte. Em 1988, o artista teve uma overdose de heroína injetável e faleceu, juntando-se ao “Clube dos 27”.  Em 2010, a grande amiga de Basquait, Tamra Davis, reuniu as imagens de arquivo que havia feito do artista nos anos 1980 e lançou o documentário “The Radiant Child”.

Em tempos de #mariellepresente, a presença da arte de Basquiat no Brasil é uma coincidência feliz e necessária. Marielle foi executada e deixou um legado que inspira e inspirará toda uma geração. Basquiat deixou um legado que inspirou uma geração, principalmente de jovens de origem pobre e negros que cresceram nos anos 1980, 90. Como Marielle, que era de origem pobre, negra e nascida em 1979. Que as almas e os legados de Marielle e Basquiat influenciem cada vez mais o imaginário coletivo e façam com que as pessoas influenciem umas às outras de maneira que o descaso para com o outro deixe de ser celebrado pela sociedade.

INFORMAÇÕES:

Jean-Michel Basquiat, Obras da Coleção Mugrabi

Local: CCBB-SP, Rua Álvares Penteado, 112 – Centro

Datas: 25/01 até 07/04

Entrada franca.

Mais info: http://culturabancodobrasil.com.br/portal/jean-michel-basquiat-obras-da-colecao-mugrabi/

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