Jeito de Corpo: Caetano e Balé da Cidade no Theatro

0
197

No ano em que o Balé da Cidade de São Paulo completa seus 50 anos, o grupo de dança do Theatro Municipal de São Paulo abre sua temporada com o espetáculo Jeito de Corpo, coreografado em cima de músicas de Caetano Veloso. A coreógrafa Morena Nascimento teve a seu dispor os 33 dançarinos do Balé da Cidade, que fizeram uma tocante e significativa performance. Sob o som de músicas que fogem das listas de mais conhecidas de Caetano, e com algumas reverberações e criações originais adicionadas, a música do espetáculo era a voz de Caetano e sua forte retórica, com a adição de ritmos como funk e Olodum.

O cenário logo de cara amostrava o tom político da criação. Muros de concreto. Uma porta no meio. Há portas até para aqueles que vivem em muros de concreto. O começo, com a canção em inglês Neolithic Man, foi uma coreografia relativamente simples com um solo. A partir daí, o show começou a ser gradualmente mais ousado. Em diversos trechos, havia uma solista, um dançarino que fazia uma coreografia mais ousada e pessoal, enquanto os demais faziam algo ritmado atrás.

Algumas sequências merecem destaque:

– após dois dançarinos de beijarem, um deles é arremessado por um grupo de um lado para o outro. A medida que ele se lança, mais a sociedade ao seu redor se vira para ele. Quando ele busca um lugar, representado por um tapete que vai sendo trocado pelos dançarinos, ele se lança ao tapete que sempre lhe é tirado na hora H, fazendo com que ele caia direto no chão. A sequência é concluída de forma irônica, com o mesmo dançarino rodeado por vários outros, sendo bajulado.

– Na sequência que toca a música “O Neguinho”, interpretada por Gal Costa, uma coreografia é realizada no meio do palco. Enquanto isso, um dançarino negro parece atordoado no meio da multidão. Uma fila de dançarinos circula entre os que estão fazendo a coreografia, alguns eventualmente juntando-se a ela. Se a coreografia é o racismo descarado, o racismo institucionalizado se encontra circulando por aí e por vezes juntando-se a esse racismo descarado.

– E na sequência que toca a música “Sampa”, os dançarinos circulam sem destino. Enquanto isso, uma dançarina com fones de ouvido representa o cidadão diário paulistano. Um dançarino, representando a agressividade, começa a lançar agressivamente outros dançarinos contra as paredes. Quando fica apenas ele e a solista ainda dançando, ele a persegue e, apesar da relutância dela, a estatela contra a parede. Morena Nascimento conseguiu abordar um releitura do estupro que, mesmo passando ao espectador desconforto e nojo, é sútil e clara. Não há um movimento sexual. Apenas a dança corporal e as mãos da moça estatelando-se contra a parede. E é com as mesmas mãos nas parede, que a sequência continua, com aqueles que haviam sido jogados contra ela anteriormente. Ele começam aos poucos a dar tapas na parede e o som em conjunto forma o ritmo da batida do funk. Uma dançarina entra com um ventilador gigante e outra esforça-se para chegar ao ventilador. Sob a batida do funk e com os cabelos e o vestido ao vento, ela começa a mexer o corpo e o traseiro. Seria o funk um sopro de esperança para o autoritarismo? Mas o funk também tem seus problemas, principalmente na representação das mulheres, e o rebolado da dançarina transforma-se num eletrizante movimento de corpo.

Caetano Veloso (Reprodução)

Caetano acompanhou o último ensaio da apresentação e disse ter ficado orgulhoso de ver as suas músicas ganharem um olhar tão poético. Ele ainda “descobriu” uma música que havia esquecido que havia composto. A canção Vento, também interpretada por Gal, foi uma surpresa para o cantor.

 

Vivemos em tempos difíceis e é nessas horas que os serviços da Arte mais são requisitados. É bom ver o Theatro Municipal, com toda sua pompa, tendo ainda em sua alma o brilhantismo de jovens artistas como Morena Nascimento, os dançarinos do Balé da Cidade e toda a equipe do teatro. E ecoando em suas paredes as palavras profundas de Caetano Veloso. Resta aos paulistanos frequentarem mais o seu Centro, o seu Theatro e a dura poesia concreta de suas esquinas.

 

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here