Jesus Christ Superstar Live: aprende, Globo

No domingo de páscoa, além de ser o dia em que tradicionalmente nos empanturramos de chocolate, também é o dia que se celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Este ano, a data caiu no 1º de abril, também conhecido como o Dia da Mentira. Coincidentemente, ou não, a NBC, uma das maiores emissoras norte-americanas exibiu na noite deste domingo de páscoa o especial Jesus Christ Superstar Live. Uma apresentação do lendário musical criado pelo mestre Andrew Lloyd Weber e pelo mito Tim Rice.

JC Superstar é considerado por muitos um dos maiores musicais já feitos. Caso você jamais tenha ouvido falar do mesmo, eu resumirei: trata-se de uma ópera rock que conta a história dos últimos dias de Jesus Cristo. No album que foi lançado da obra quem cantou a voz de Jesus foi o vocalista do Deep Purple, Ian Gillian. Os personagens principais, além do próprio Jesus, são Judas, Maria Madalena e Caifás.  A obra não é uma sátira, muito pelo contrário, boa parte das letras das músicas foram escritas em cima dos trechos dos Novo Testamento – parte da bíblia em que os apóstolos contam a história de Jesus. O enredo dos últimos dias do maior símbolo espiritual do mundo ocidental é contado e cantado no musical com seriedade e através de um ângulo reflexivo. Judas faz um contra-ponto a Jesus, sempre o questionando, não como um traíra, mas sim como um antigo braço direito cético e racional que se mostra frustrado por Jesus ter tomado decisões políticas e diplomáticas erradas. Além disso, JC Superstar também sempre teve a virtude de flertar com uma meta linguística de dias atuais. No filme, que foi feito em 1973, há uma “montagem” da produção do próprio filme, lembrando as conexões com os dias atuais, além de um plano em que aviões de guerra voam sobre o deserto. Uma das frases-chave do musical, cantada duas vezes por Judas exemplifica perfeitamente a meta linguística e a racionalidade do musical:

“Toda vez que olho para você, eu não entendo. Como você deixou as coisas que você fez saírem tanto do seu controle? Você teria lidado melhor se tivesse planejado! Porque você escolheu um tempo tão antigo em uma terra tão antiga? Se você tivesse vindo hoje, você teria atingido a nação inteira. Israel em 4 a.C. não tinha comunicação em massa”

A obra ainda possui um tom sarcástico que é carregado com sutileza de mestre. Judas, em todas as montagens, é interpretado por um ator negro. Da mesma maneira que a imagem de um Jesus loiro e europeu foi empurrada para o mundo, em uma manobra para que se associasse o “padrão de beleza perfeito” com o “homem perfeito”, JC Superstar aplica a mesma lógica em uma menção ao ódio racial. Judas, o traidor, foi sempre odiado por todos, assim como negros foram sempre perseguidos por todos. Implicitamente, a imagem do “homem imperfeito” sempre foi associada à do homem do “padrão de beleza imperfeito”.

Publico indo ao Lafayette Theatre, no bairro do Bronks, assistir Macbeth

No entanto, em JC Superstar Live, os produtores foram adiante. Em pleno horário nobre de páscoa, em plena NBC, colocaram John Legend, também negro, para interpretar Jesus. Caifás, também foi interpretado por um negro, outra lenda de West End, Norm Lewis e seu vozeirão. A opção por colocar atores negros nos papéis masculinos principais, não se trata apenas de color blind casting – aquele casting em que atores de etnias diversas interpretam papéis cuja a etnia não necessariamente é a mesmas que a deles. Quando eu assisti Os Miseráveis em Londres, por exemplo, Fantine era asiática. JC Superstar coloca um Jesus e um Caifás também negros porque, dadas as atuais circunstâncias, o ponto levantado por Weber e Rice sobre o Judas negro precisa ir além. Os EUA, assim como o Brasil, vivem uma grave crise cultural e uma divisão ideológica exorbitante. Com o crescimento de grupos de supremacia branca, casos de violência policial, entre diversos outros fatores, os negros americanos se encontram voltados a mostrar para os brancos, tanto os conservadores quanto os liberais, que o racismo ainda existe corriqueiramente. Apesar do liberalismo americano ter crescido e atingido grandes conquistas para direitos civis nas últimas décadas, ainda há uma grande ignorância sobre a profundidade do racismo que existe naquele país. Não basta elucidar um ponto, também é preciso mostrar as coisas na prática.  Colocar cantores brancos em papéis que podem ser feitos tão bem quanto ou melhor por atores negros, como é o caso de John Legend e Norm Lewis, acaba sendo irrelevante ou tendo apenas um efeito embaçador na gravidade real do problema.

Em 1936, Orson Welles dirigiu e produziu uma montagem de Macbeth, de Willian Shakeaspeare com um elenco inteiro de atores negros. O impacto da montagem de Welles é tema para outro artigo. Mas é um exemplo desse “ir além”, em questões de preconceito, sem simplesmente jogá-las dentro da zona de conforto das etnias causadoras de opressão. Um Jesus negro, sai da zona de conforto. Provoca. Acorda.

Sara Bareilles como Maria Madalena

Para Maria Madalena, basta ser mulher. Independente da etnia. A luta já é diária, as cartas já estão na mesa. Sara Bareilles fez um trabalho excelente como a prostituta, namorada de Jesus. Weber disse que “ela foi uma das melhores Maria Madalena que ele já viu”. Bareilles pode morrer feliz.

 

SOBRE O SHOW

A montagem trouxe também uma diversidade de referências. Dança contemporânea, punk, metal e jazz complementaram o rock clássico dos hinos de JC Superstar. Além de ser ao vivo para todo o país, a apresentação também contou com uma plateia de sortudos. O palco retangular era composto por andaimes aonde localizavam-se os músicos e um “portão”, de onde entrou e saiu Jesus, crucificado. O tal do portão foi logo apresentado, uma parede, relembrado uma comum paisagem urbana. Só faltava o graffiti, que foi feita em real time. Com uma arma de tinta vermelha, o roqueiro sueco Erik Gronwall escreveu “Jesus” em vermelho. Tal cor, teve um papel interessante na montagem. A cor do inferno, do sangue de Jesus. Judas usa uma camiseta vermelha. E quando ele trai Jesus, a bolsa de moedas de prata também é vermelha. A toalha da mesa da Santa Ceia, tem uma sutil linha vermelha. De quem é aquele sangue, afinal?

O sueco Gronwall ainda teve mais destaque como Simão Zelote, ao cantar a provocadora “Simon’s Appeal”, em uma versão punk rock. Ficou excelente. Mas a noite de Jesus também foi a noite do rock. Não só pela própria ópera, mas pela representação. No papel do excêntrico Herodes, a lenda do rock Alice Cooper deu o ar da graça. Aos 70 anos, com um terno alaranjado, ele cantou a irônica “Herod’s Song”, em que desafia Jesus a fazer seus milagres em sua casa. Para um roqueiro que abraçou o diabo em sua música e cantava com cobras, o animal do pecado, nada melhor do que fazer bullying com Jesus.

Judas foi interpretado pelo fenomenal Brandon Victor. Um gostinho da monstruosidade do cara no vídeo abaixo. Nome crescente na Broadway, Victor atingiu o ápice ao ingressar no grande sucesso Hamilton. Com um alcance e variedade vocal inacreditável, Brandon também demonstra um enorme controle de suas feições no palco. John Legend, cantor por essência e não ator-cantor, teve mais dificuldades na atuação. Mas, dentro das circunstâncias, foi perdoável. Brandon Victor teria feito um Jesus melhor, mas NBC queria colocar um nome maior como Jesus. Legend, de fato, caiu bem no papel. O mesmo serve para Bairelles. Na música mais desafiadora, “I Only Want to Say”, Legend mostrou seu valor. Um arranjo lindo e um vocal inesquecível, com elementos de soul e um falsete magnífico.

OUTROS PONTOS

Os figurinos foram outro ponto forte. Uma mescla de street fashion, com tênis, moletons de capuz e jaquetas de couro. Caifás e seu conselho, usavam mantas negras que simbolizavam o poder e contrastavam com as roupas de “todo dia” dos apóstolos.

Na música “The Temple”, em que Jesus dá o seu famoso surto ao ver o comércio em frente ao Templo, a cena inteira se passa em cima de uma cruz. Os “comerciantes” brigam por brilhantes papéis prateados, em cima da cruz. Em tempos de líderes religiosos bilionários e envolvidos em política e de fiéis por “#rezepara” para cada coisa ruim que acontece no mundo, a prata em cima da cruz representa de maneira interessante o que é o cristianismo do século XXI.

Na parte em que Jesus é preso, a “imprensa” o ataca com perguntas como “Você vai lutar, Jesus?”, “Qual foi seu maior erro, Jesus?”. Dançarinos com câmeras, microfones e até Iphones, cercam Jesus. O julgamento público midiático para qualquer suspeito, destruidor de vidas, comum desde os primórdios da informação de massa. “Não julgarás”, diz um dos mandamentos de Moisés. Pois é.

Weber e Rice estavam presentes na apresentação. Rice tuítou “É uma das primeiras vezes que o New York Times critica positivamente esse musical”. Weber, que havia ganhado um especial sobre sua carreira feito pela NBC e areado na sexta-feira santa, diz que escreveu a música tema de JC Superstas em um guardanapo. Weber também é responsável pelos clássicos “Cats”, “Fantasma da Ópera”, “Evita”, entre outros. Entrevistado por Glen Close, Lin Manuel Miranda e outros nomes da Broadway, o compositor diz que a nova geração está reinventando os musicais e arriscando-se para reciclar os mesmos.

 

A MENSAGEM

Finalmente, Jesus Christ Superstar Live é um importante argumento liberal. Você consegue imaginar a Rede Globo exibindo ao vivo em um domingo de páscoa um musical sarcástico, racional e politizado sobre os último dia de Jesus Cristo? Pois é. A televisão, por mais decadente que esteja, ainda tem o poder de ditar o tom cultural e as direções ideológicas da sociedade. Coloque uma gíria na novela, no dia seguinte a gíria já fará parte do vocabulário coletivo.  A NBC manda uma forte mensagem para a sociedade americana, que se encontra entre um precipício cultural e um enorme salto. “Talvez seja hora de dar o salto”, é a mensagem da NBC. Afinal, há um certo encanto com o liberalismo crescente dos jovens. “Mas toda palavra que você diz hoje, é alterada de alguma outra forma. E eles vão te machucar se acharem que você mentiu”, cantou Judas à Jesus. Em tempos de Fake News, é melhor ouvirmos a Judas. Não é, Rede Globo?

 

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