Nasce Uma Estrela

Assim que a primeira sequência do filme acaba e surge o título do filme na tela fica claro para mim a história que veria. Quase como um deja vu, sabia as reviravoltas dramáticas prováveis e o seu desfecho. Sabendo do destino, agora só torcer para que o trajeto até lá fosse o mais satisfatório possível. E foi. Bradley Cooper atua e dirige fazendo jus a toda sua experiência na indústria cinematográfica e Lady Gaga mostra que nasceu para o show business em toda suas expressões. Nasce uma estrela pode significar também que nasce um bom diretor, nasce uma boa atriz e nasce um bom musical.

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Lady Gaga – Composição

Nos últimos anos ficou bem claro o talento e a versatilidade de Lady Gaga na música. Dona de uma das vozes mais belas e poderosas no segmento Pop, a artista não ficou devendo nada ao gravar um CD de Jazz com Tony Benett, nem se intimidou ao interagir no seleto meio de músicos já consagrados, como Sting.

Em “Nasce uma estrela” Lady Gaga tira outras virtudes da sua caixinha de talentos. Além de sua conhecida capacidade vocal, ela também mostra que pode compor e atuar de forma segura e impressionante.

Mas você pode pensar: mas Fabio, compor ela sempre compôs, né? É, mas dentro do fazer fílmico entendo que as circunstâncias são um pouco diferentes. Eu geral, um compositor cria suas músicas baseado naquilo que ele mesmo quer falar e dentro de um contexto onde ele mesmo constrói. Não é o caso de uma música para um filme. Ela precisa atender uma série de necessidades específicas para o filme e nesse caso, Gaga saiu da sua zona de conforto.

Nas musicas de “Nasce uma Estrela”, Lady Gaga não só atende as questões particulares do filme, mas, também acrescenta pelo menos duas músicas no mainstream musical. Não é raro ouvirmos “Shallow” e “Always Remember Us This Way” no rádio ou como plano de fundo de uma loja ou restaurante. Qual foi a última vez que uma música conseguiu percorrer esses dois caminhos? Não sei dizer. Frank Sinatra? Elvis Presley? Filmes da Disney com músicas de Phil Collins ou Elton John? Whitney Houston? Nesse quesito, Lady Gaga entra nessa turma aí.

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Lady Gaga – Atuação 

Em termos de atuação, a, até então, cantora também quebra alguns padrões. O principal deles eu diria que é a “carinha bonita”. Não que Lady Gaga seja feia, pelo contrário. Mas ela quebra o padrão da atriz Hollywoodiana com sua forte personagem Ally. Quem disse que toda atriz tem ter os mesmos atributos físicos de uma modelo numa passarela em Milão? Com um nariz um pouquinho maior que o usual e um rosto que não tenta ser o mais bonito do mundo, Gaga mostra que a atuação deveria ser a principal expertise de uma atriz. E que nem toda personagem feminina precisa ser a Natalie Portman ou a Angelina Jolie.

Sem precisar se apegar a sua aparência física, Lady Gaga faz o trabalho de uma atriz madura: passa a emoção para frente. Mesmo que pra isso precise incorporar um pouco da Lady Gaga dos palcos nas cenas de performance musical. Nesse sentido fica mais difícil separar a figura de Ally com a de Lady Gaga. O toque do piano, o jeito de cantar e os trejeitos da voz são os mesmos da artista que tantas vezes ganhou os holofotes da mídia.

Não é a primeira experiência de Gaga como atriz, já que estrelou a série American Horror Story ganhando até um Globo de Ouro, por Melhor Atriz em Minisérie ou filme para televisão. Mas fiquei com a sensação de querer ver mais Lady Gaga no cinema e em trabalhos ainda mais ousados. 

Bradley Cooper

O que mais vale a pena ressaltar no ator e diretor de “Nasce uma Estrela” foi sua direção. Câmera na mão e a busca por enquadramentos diferentes do comum não são as coisas mais revolucionárias do mundo, nem para Hollywood, mas até que as escolhas dele casaram bem com o filme. Esse tipo de audácia “pero no mucho” mostra pelo menos uma iniciativa criativa que muitas vezes falta no cinema maistream. Pra mim, 80% desses filmes não faz diferença nenhuma quem é o diretor.

Esse fato me fez lembrar de outro diretor que também atribuo esse status: Clint Eastwood. Lenda da atuação em alguns dos melhores filmes já feitos, a direção de Clint é, em alguns casos, primorosa! E senti que Bradley Cooper trouxe um pouco do experiente diretor do qual, inclusive, já foi ator de um filme dele em Sniper Americano. Seja influenciado pelo fato de que Clint Eastwood era a primeira escolha de direção para “Nasce uma estrela” ou seja seu próprio estilo, Bradley Cooper conta e entrega um filme bem acabado.

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O que ele quis dizer?

Apesar de uma direção de cena exemplar, questiono Cooper sobre alguns aspectos narrativos, junto com sua equipe de roteiristas. Vejo muitas pessoas comentando como se o filme “julgasse” negativamente a fase Pop da Ally. No filme, particularmente, há um julgamento do protagonista, Jackson Maine, mas não diria que isso se aplica na narração do filme em si, papel do diretor. E isso é um problema, na minha maneira de ver.

Seria até contraditório julgar as letras, o figurino e tudo o que envolve o mundo Pop, afinal de contas um dos maiores expoentes do gênero nas últimas décadas foi a própria Lady Gaga! E… bem, veja com seus próprios olhos:

“Don’t wanna kiss, don’t wanna touch
Just smoke my cigarette and hush
Don’t call my name
Don’t call my name, Roberto
Alejandro
Ale-ale-jandro

Se eu fosse julgar a Ally por suas letras e atuações caricatas, teria que imediatamente julgar Lady Gaga. O que seria unfair. Lady Gaga e seu Pop transgressor é algo necessário e tem o seu valor.

Intenções Claras

Então, porque as pessoas interpretam o filme como se houvesse nele uma crítica ao mundo Pop? Como se Ally estivesse se vendido e não como se fosse algo inerente ao mercado e as pretensões de Ally?

Durante o filme, a história e as motivações de Ally meio que se perdem para o espectador. E um diretor precisa antever que talvez o público só veja o ponto de vista do protagonista. Só porque Jackson sofre com as escolhas de Ally não significa que ele está certo. Fortalecer o arco narrativo de Ally fortaleceria também a história e a transformação de Jackson. E acabaria com essas ambiguidade possível no filme.

Jackson não gostava do estilo de vida ou do estilo de música de Ally? Ou ambos? Ou, ele estava esperando uma relação machista, onde ele pudesse desempenhar um papel dominante na relação? Ou era simplesmente um problema dele não conseguir encarar os dramas da própria existência? Apesar de eu ter a minha interpretação, existem outras possíveis.

Não que não possa haver ambiguidades e indefinições na direção e no roteiro quando propositais, mas quando envolve certos sensos comuns, como o da música Pop ser superficial, é bom dosar muito bem para que o discurso do filme não seja dissolvido em suposições culturais e até contrárias a ideia do filme. Afinal, esse tipo de coisa pode mudar o curso do entendimento do espectador e acabar até deturpando o discurso do filme. É possível que alguém diga que aconteceu tudo o que aconteceu porque a “Ally se vendeu”. Eu gosto de interpretar que não. Mas se alguém interpretar dessa maneira… não deixa de estar certo. O espectador sempre tem a razão. A direção que não fechou essa possibilidade direito.

Veredito

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Agora que já chegamos a conclusão de que a música Pop só deixa consequências desastrosas, podemos dar o veredito. Brincadeira.

Vale a pena ver “Nasce uma Estrela”. Ele tem um quê de filme contemporâneo, mas um roteiro clássico. Ele tem boas atuações e participações de super atores como Dave Chappelle e, principalmente, do Sam Elliott (um outro nível de atuação, merecendo sua nomeação ao Oscar de melhor ator coadjuvante). Tem uma direção e direção de fotografia bem eficiente, sobretudo no trabalho de câmera.

Enfim, um filme digno de ser assistido, mesmo que tenha sido relativamente esnobado pelo Oscar. Bradley Cooper merecia uma indicação de melhor direção? Uma indicação, sim. Podia ter sido indicado a melhor trilha sonora? Também não ia ser injusto, mas… Coisas do Oscar.

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