A Nova Geração do Jazz – Parte II: Snarky Puppy

Hoje, Snarky Puppy já soma mais de 12 anos de estrada e é uma banda consolidada no meio do Jazz. Ouvindo, é fácil entender o porquê. Uma banda impressionante, de seu tempo e que tem feito obras incríveis.

A Banda

Liderados por Michael League, no DNA de Snarky Puppy tem algo muito especial: é uma banda iniciada nos tempos da faculdade que ganhou notoriedade e tem virado referência para os jovens jazzistas. E não estamos falando de um trio ou uma banda “pequena”. Durante o tempo da banda, já passaram mais de 40 músicos entre membros regulares e esporádicos, sendo que boa parte desses músicos passaram pelo Curso de Música da Universidade do Texas.

Snarky Puppy não é uma banda que damos o primeiro play já imaginando o que iremos ouvir. Suas músicas passeiam por diversos estilos, ritmos e timbres. A única coisa em comum entre seus álbuns e músicas é que, vindo da banda, podemos sempre esperar arranjos inusitados e criatividade de sobra.

Os anos de estrada, as diversas parcerias bem sucedidas e a qualidade artística e musical do grupo trouxeram, além de 12 álbuns, 3 Grammys: o de Melhor Álbum Instrumental Contemporâneo, em 2016 e 2017, por Sylvia e Culcha Vulcha respectivamente, e o de Melhor Performance em R&B, em 2014, em parceria com Lalah Hathaway.

Sonoridade

Existem alguns fatores que fazem de Snarky Puppy uma banda importante no cenário musical contemporâneo.

O primeiro deles seria a sonoridade:

Juntar estilos, gêneros e ritmos é uma prática já comum e apreciada no meio musical, mas Snarky Puppy consegue levar isso ainda mais longe. Musicalmente, reconhecemos um pouco as características de outros estilos musicais mas, isso não se dá de forma forçada, gratuita ou por modismo. Os diversos elementos se expressam genuinamente. Assim a banda reforça algo bastante característico nos dias atuais: diversas referências. Muitos de nós possuímos inúmeras predileções e crescemos ouvindo muitas coisas. Nossa bagagem musical é muito maior do que alguém do século XIX, que, em geral, possuía limites na hora de ouvir, sendo dependentes dos gostos das rádios e dependentes da cultura vigente.

Em Binky, por exemplo aos 07:13, começa uma batida à la rap, sintetizadores e ideias relativamente distantes ao que ouvimos na música até então (ritmos caribenhos, rock, fusion…). Essa parte da música é algo próprio de Snarky Puppy, que não se prende em nenhuma preconceitualização de que elementos devem ou não serem colocados. É uma expressão natural de seus músicos. E, como pode-se observar, essa mistura musical não encontra nenhuma limitação técnica. Estamos falando de instrumentistas de um nível técnico excelente.

Parcerias

Encontramos em Snarky Puppy a união de músicos extraordinários, que se dedicam integralmente ou parcialmente à banda. Bill Laurence é um exemplo desses músicos, que possui bastante identidade fora da banda, mas não deixa de colaborar nos álbuns e deixar a sua marca. Outro destaque da banda é na parte percussiva. Snarky Puppy ostenta não apenas um bom baterista, mas sim dois: Larnell Lewis e Robert “Sput” Searight. Dois grandes bateristas.

Outro fato que reforça isso são as parcerias. Principalmente nos álbuns Family Dinner – Volume 1 e Family Dinner – Volume 2, encontramos a participação de artistas consolidados, como a já mencionada Lalah Hathaway (que faz algo literalmente inacreditável na gravação)(sério, se você não viu o link anterior, marca nos favoritos ou alguma coisa), David Crosby, Jacob Collier e o mestre brasileiro Carlos Malta. (Sério, não ignore a indicação)

Como o próprio nome dos álbuns remetem (em tradução livre: Jantar de Família), Snarky Puppy cria um ambiente convidativo e familiar aos convidados e aos músicos. À vontade, a música encontra um ambiente para se expressar livremente. Especialmente ao vivo, como é feita a gravação da grande maioria dos álbuns da banda. Mais uma característica marcante dos rapazes. Com um ambiente de liberdade, inspiração e alegria, vemos Snarky Puppy fazer coisas realmente notórias. A impressão que fica é que eles estão em um jogo. Se divertindo, vencendo e fazendo história.

https://www.youtube.com/watch?v=RcOs6LzmYv4

É o caso de:

Lingus

Mesmo com qualidade de sobra já demonstrada anteriormente, considero essa música um divisor de águas para a banda (e provavelmente para o Jazz contemporâneo).

Sim. Lingus seria mais uma música muito boa se não fizesse parte da banda um dos expoentes da nova geração do Jazz: Cory Henry, o bruxão do jazz americano, para destruir a música. Henry simplesmente quebra as barreiras do tempo e do espaço no solo dessa música. E tira Snarky Puppy do lugar do “mais uma banda de Jazz”, e coloca no patamar de “Jazz que viralizou”. Isso não era nem cogitável, antes de Snarky Puppy, Lingus e Henry.

Começando em um Ad Libitum instigante, no melhor estilo: “o que esse cara tá fazendo?”, Cory Henry cresce frase após frase em técnicas interessantes de improviso, como por exemplo, ao tocar as mesmas notas tanto na mão esquerda e direita, assim como a utilização de um timbre de teclado muito particular. E depois de crescer, crescer, crescer, improvisar, improvisar, improvisar, quando achamos que não existe mais nada para destruir, Cory Henry continua tirando coelhos da cartola, até o fim da música. Frases extraordinárias. Técnica impressionante. Incrível.

O tecladista Cory Henri
Reprodução

Lingus exemplifica algumas características particulares de Snarky Puppy: o número de colaboradores, o estilo da composição, os jovens talentos, gravações ao vivo e a vontade de inovar.

Influência

Por esses outros motivos, Snarky Puppy tem a capacidade não só de produzir música, mas influenciar uma nova geração ao Jazz, que deixou de ser apenas uma forma de expressão musical do século passado e encontrou novos caminhos no presente.

Por isso, vejo-os como influência para bandas como NikKollective, 5th Flo., e Anthony Brandall. Boa música e legado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: