Roma é mesmo o melhor filme do ano, para o pesar de Cannes

A obra-prima de Alfonso Cuarón é uma cartada de mestre da Netflix para provar que os "grandes festivais de cinema" estão tão em crise quanto as próprias salas

0
198

“Netflix ganhou esse jogo”, disse Barry Diller, ex CEO de estúdios como FOX e Paramount. E ele se referia a questão corporativa do mercado Audiovisual, sobre como o canal de VOD dominou o Audiovisual mundialmente, aproveitando-se da lerdeza dos grandes estúdios em se atualizarem. Mas a frase de Diller poderia se estender para o âmbito artístico-cultural do Audiovisual. Enquanto os festivais de cinema se colocam como grandes “donos” do cinema mundial, os congressos do fazer cinema (sim, cinema, não audiovisual), a realidade do Audiovisual se distância desses velhos elefantes a cada edição. O Festival de Cannes, tido como o principal evento de cinema do mundo, não exibiu Roma, porque o Netflix não lançou o filme comercialmente na França. A lei francesa exige que um filme para ser exibido em festivais, deve ter uma distribuição comercial no país. Good luck with that. O modelo de negócios do Netflix é justamente o oposto. Esqueçam a telona. O filme vai direto para o site e streaming e as pessoas assistem em um computador de 13 polegadas em suas camas. Me assassinem, mas a verdade é que ninguém mais se importa com a telona.

O problema de Canne, Berlin e afins, é que além de serem arrogantes, eles menosprezam a inteligência do Netflix. Netflix sabia muito bem que o filme ia sair melhor que a encomenda. Um excelente diretor, contando uma história pessoal sobre sua infância e na cidade em que ele cresceu. Netflix sabia que estaria financiando o filme do ano e que Cannes iria se encontrar preso nas próprias armadilhas. É uma briga que todos já sabem quem sairá vencedor.

Filme sobre Luta de Classes

Não que o filme seja sobre luta de classes, mas é uma das temáticas recorrentes. O interessante é que é dificílimo fazer um filme com um viés social desse hoje em dia, sem parecer coisa de estudante de 1º ano da faculdade revoltado. “Que Horas ela Volta” é o maior exemplo recente disso. Talvez esse fosse o maior desafio do Alfonso Cuarón. Mas, o bom diretor sabe suas limitações. O roteiro não é excepcional. Aliás, nem são as atuações e a montagem tão pouco. Todo o talento e a beleza do filme se encontram na capacidade do diretor mexicano de tecer cenas que se complementam gradualmente na transformação da personagem central.

Acontece que essa “transformação” dessa personagem é relativa. Na sua posição de jovem pobre do campo que vai para a cidade grande para resolver a vida, existe aos nossos olhos uma monotonia na sua vida que é quase que uma capa de proteção, uma barreira entre o espectador e essa mulher. Ela lida com as peripécias da rotina do trabalho como segurar o cachorro toda vez que alguém abre o portão, vive o amor familiar de uma família que não é sua, observa o desmantelar dessa família, inicia a sua vida sexual e lida com uma gravidez fracassada. Tudo isso parece uma tragédia shakesperiana, ou até mesmo uma novela, já que já estamos no México. Mas, não. Somente em um momento do filme, o espectador sente a força dos sentimentos internos dessa mulher. Depois de quase se afogar para salvar a criança da família que trabalha, ela chora pelo filho perdido.

Os aviões de Roma

Cuarón faz questão de manter a distância entre nós e ela. Como aquele elemento o dia-a-dia que vemos com tanta frequência, mas sequer reparamos. Como um avião no céu. Aviões são elementos extremamente presentes no filme.

Libo e o diretor Alfonso Cuarón

Autobiografia

A história é baseada na infância de Cuarón. Como uma criança nos anos 1970 na Cidade do México, de classe média alta, o pequeno Alfonso tinha uma babá como Cleo. Trata-se de Liboria Libo Rodriguez. Hoje com 74 anos, a senhora chegou a acompanhar algumas filmagens do filme. Em entrevista à Variety, o diretor explica como Libo contava a ele e seus irmãos sobre a vida difícil que ela tinha no campo antes de ir para a Cidade do México. E ele complementa dizendo como quando criança ele não entendia exatamente o que aquilo significava e via as histórias como aventuras. Com o passar dos anos, no entanto, ele passou a ver a história de Libo como a história e uma mulher pobre com muitos traumas e problemas. Mas que ainda assim, tinha muito amor a oferecer à sua família.

Fotografia

Não contente de dirigir muito bem o filme, Alfonso Cuarón conseguiu assinar também a fotografia. Preto e Branco, que é mais fácil, mas mesmo assim, isso é raríssimo no cinema. Precisa ter muita coragem para assumir a fotografia e a direção. O cara sabe o que faz.

No Oscar

A Academia está se aproveitando da bobagem dos festivais europeus para ganhar pontos. Colocaram o filme para disputar Melhor Filme e é até capaz que ganhe. Pelo menos melhor fotografia deve ganhar – não vão deixar o Cuarón sem estatueta.

Palpite:

Melhor Filme de Língua Estrangeira: GANHA

Melhor Direção: PERDE

Melhor Fotografia: GANHA

Melhor filme: PERDE

Melhor Atriz: PERDE

Melhor Atriz coadjuvante: PERDE

Melhor Roteiro original: PERDE

Melhor Direção de Arte: GANHA

Melhor montagem de som: PERDE

Melhor mixagem: PERDE

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here