Sunset Park: Paul Auster captura a existência americana durante a crise de 2008

   Miles Heller não é o protagonista de Sunset Park, de Paul Auster. Tal papel, cabe talvez mais à um conceito, que circunda os personagens dentro de seus próprios mundos que se conectam. Este conceito é o principal tópico de debate que recai sobre a obra. Seria o “acaso”, o protagonista de Sunset Park? Toda a obra de Auster é marcada por um traço fortemente unificador: a trivialidade. Sob a ótica da trivialidade, quando apresentadas as personagens sob a perspectiva do autor, o status da posição social que cada personagem ocupa é secundário. Compreendemos as trivialidades da vida do jovem confuso que larga faculdade, da mesma maneira que observamos a trivialidade da vida de sua mãe, atriz de sucesso, ou da jovem que se debate para completar e conquistar o seu doutorado. Estes personagens são, portanto, meros cidadãos que circulam por Nova Iorque e pelo tempo, procurando uma forma de lidarem com os fatos que o acaso lhes trouxe, sob o cenário dos males de seus tempos.

Miles destrói-se com os traumas de sua tragédia pessoal e ao redor dos campos de sua batalha empírica, ele observa um país em histórica crise financeira. O que leva um país à tal crise é uma sucessão de fatos, causados por escolhas humanas que movem o acaso e são carregados pelo tempo – assim como uma crise psíquica. Auster chega a citar isso em letras garrafais quando o personagem Morris Heller, remoendo-se sob o estado deprimido de sua esposa, Milla, pensa que caso tivesse se casado com ela logo que a conheceu, ao invés de somente depois que os dois já eram mais velhos e divorciados, a teria poupado de um marido falecido, um filho falecido e um enteado desaparecido. São os caminhos do acaso. A narrativa se conclui com uma súbita mudança que o acaso proporciona, oferecendo ao leitor uma amostra em tempo real das artimanhas do inesperado.

O leitor passa todos os capítulos do livro aprendendo sobre como o passar do tempo transportou os personagens entre suas experiências e dramas, muitas vezes encontrando-se entre si durante tais jornadas. Exceto o último capítulo, que traz a mudança quando leitor já aceita que a partir de agora os acontecimentos e fatos parecem ter se estabilizado. O conceito, ou protagonista, talvez seja a fragilidade. A velocidade com que eventos do cotidiano podem alterar-se completamente, torna tais eventos frágeis. Bobby, o meio-irmão de Miles, morreu por uma azarada combinação de frações de segundos ou a combinação de diferentes cargas de ressentimento que fizeram o temperamental Miles empurrá-lo à morte?

O sortudo Jack Lohrke

Auster não só levanta tal questão, mas também a apimenta com comparações inusitadas. A história de Jack “Lucky” Lohrke sendo a principal. Lucky Lohrke, o sortudíssimo jogador de baseball que escapou da morte diversas vezes por meras questões de chance. Mencionado com admiração por Miles e Morris ao longo da obra, Lucky Lohrke é uma espécie de mito idolatrado pelos Heller. Nas páginas derradeiras, antes do acaso desestabilizar a vida dos Heller mais uma vez, Morris lê o obituário de Lucky Lohrke. Quando a natureza optou por fazer parar o coração de Lucky Lohrke, não houve acaso que o tenha salvado. O mito de Lohrke unia Miles e Morris. Nas reflexões do pai, em que o medo da velhice, da morte, da solidão e da relação com o filho perpetuam, a imaginação mitológica é um pilar a se segurar. O personagem que o pensativo Morris cria como metáfora de sua relação com o filho, o Can Man, é um indigente que vaga pelas ruas procurando restos de valor. Paul Auster presenteia Morris com um capítulo quase inteiro com a sua própria voz, em segunda pessoa. As reflexões de Morris são o parecer de um homem que vê o tempo passar distribuindo fragilidade. Não por acaso.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *