O que está por trás da Revolução dos Bichos

Capa Revolução dos Bichos
Não é à toa que a capa é vermelha (Reprodução)

“A Revolução dos Bichos”, publicada originalmente como “Animal Farm: A Fairy Story” em 1945 por Eric Arthur Blair, conhecido por seu pseudônimo George Orwell, até os dias atuais movimentam discussões e debates sobre poder, ditadura, totalitarismo e claro, autoritarismo.

Para começar a nossa análise é necessário que façamos uma breve biografia do autor. O britânico George Orwell expunha claramente sua posição política, filiado ao Partido Trabalhista Independente, se apresentava como um socialista democrata. Por causa de seu engajamento político, foi combatente voluntário no lado republicano na Guerra Civil Espanhola, ou seja, lutou contra as forças nacionais do General Francisco Franco. Conhecido por outra grande obra do século XX, “1984” ainda é um dos livros mais vendidos da história e que até hoje, assim como “A Revolução dos Bichos”, nos inspira a pensar nos regimes, posições e atos que os atuais Estados tomam.

Voltando a obra que estamos analisando, vamos agora entender sobre o que realmente trata o enredo. Escrita entre os anos de 1943 e 1944 e publicada no ano seguinte, em 17 de agosto de 1945, “A Revolução dos Bichos” se passa na fazenda “Granja do Solar”, onde tudo começa quando o velho porco Major compartilha seu sonho com todos os animais: serem governados por eles mesmos, sem se submeterem ao homem. Assim, ele ensina a todos uma antiga canção, a “Bichos da Inglaterra”, que resume a filosofia do “animalismo”, colocando como preceitos a igualdade entre os animais e dando um porvir melhor do que o atual momento. Três dias depois desta apresentação, Major falece e quem se sente responsável por tomar seu lugar de influência são dois porcos mais letrados e inteligentes do lugar, Bola-de-Neve e Napoleão.

Após Sr. Jones, proprietário da fazenda, esquecer de alimentar os animais, os dois porcos decidem por realizar uma revolução na granja. Era a gota d’água da submissão dos bichos. Liderados pelos dois porcos, os animais expulsam os humanos da fazenda e declaram aquele novo local como “Fazenda dos Bichos” e colocam em prática os 7 mandamentos do animalismo:

“1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. O que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupa.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais”

Não queremos aqui dar qualquer tipo de spoiler, por mais que esta seja uma das obras mais lidas do século passado. Esperemos que este texto seja o motivo final para que depois da sua leitura você feche o seu navegador e vá direto abrir “A Revolução dos Bichos” para se deleitar com essa obra prima. Por essa razão, não vamos contar o resto do enredo, mas sim, o que está por trás desses personagens.

Se voltarmos ao período que o livro foi escrito, vemos que esta obra de Orwell é na verdade uma sátira ao que estava ocorrendo na Rússia momentos antes da Segunda Guerra Mundial. Aquele era o fim da Revolução Soviética no país, fato que foi acompanhado atentamente pelo autor justamente por ser comunista. Porém, ele não estava nem um pouco contente na forma como ela terminou.

Stálin era o autoritário governante da URSS naquele momento, mas será que poderíamos chama-lo de Napoleão? Não estamos falando do imperador francês, mas sim um dos porcos da “Granja do Solar” que lidera a revolução dos bichos na fazenda. Assim, temos outro líder soviético tratado no enredo: Trotsky, este representado pelo porco Bola-de-Neve. Para completar, seria impossível não associar o velho porco Major com o filósofo Karl Marx. Alguns até falam que este último também tinha um pouco de Lenin.

Capa Ucraniana Revolução dos Bichos
É Granja do Solar ou União Soviética? (Reprodução)

Como dissemos, não queremos estragar o prazer que é a leitura desse livro, porém, dado o certo tom crítico da obra, vamos ter que falar que a revolução dos bichos é na verdade uma revolução traída. Para Orwell, Stálin fugiu do que era para ser um bom governo, assim como Napoleão na estória. Enquanto que Bola-de-Neve tentava educar os outros animais, Napoleão se fortalecia militarmente. Em diversas cenas de atos públicos na fazenda, Napoleão aproveitava para rechaçar as ideias de Bola-de-Neve com seu fiel ajudante, o porco Garganta, já deixando bem claro a representação da propaganda neste animal. Isso ocorre até que um dia Bola-de-Neve finalmente é expulso da granja.

Diversos fatos históricos da Rússia da década de 40 estão ilustrados no livro, como os expurgos stalinistas. Em um dos capítulos, ocorre a revolta dos homens, que decidem tentar retomar o poder na “Granja do Solar”. Junto à isso vem a batalha, que dizima diversos animais, mas que ao final, vencem o conflito. Após essa relativa vitória dos animais, uma parcela deles se recordam como era mais seguro na época em que Jones comandava a granja, já que não existia nenhum tipo de ameaça dos homens. Assim como ocorreu no governo Stalin, quando uma parte do proletariado soviético pensou em retomar as forças de segurança do czar Nicolau II.

Este livro é uma excelente forma para compreendermos os processos da Revolução Russa. Uma situação do livro que é muito interessante é a situação do moinho de vento da fazenda. Estragado, a obra do moinho se mostra trabalhosa e exigente e logo se torna uma promessa política para terminar a reforma. Durante o governo de Stálin, eram criadas metas impossíveis de serem alcançadas nos famosos planos quinquenais, assim como o moinho de vento da fábula. Tais projetos serviam para ludibriar a população para que ela não perdesse o seu incentivo de trabalhar por tal objetivo. Deixavam a vista aquele plano de difícil execução para que também o próprio governante se mantivesse no poder, sob a justificativa de que ele seria a pessoa certa para finalizar aquele projeto.

Outra metáfora são os “braços fortes” de Napoleão, os cães ferozes da fazenda e que são os “verdadeiros defensores da revolução”, uma alusão a KGB, o serviço secreto russo criado por Stálin para não apenas defender a Rússia de ataques ligados à inteligência, mas também para vigiar aqueles que estavam de acordo ou não com a revolução que estava sendo tomada.

Por fim, não podemos deixar de falar de um personagem muito interessante, o burro Benjamim. Depois de muita pesquisa, cheguei à conclusão que este não é uma alusão a qualquer personagem da Revolução Russa, talvez possa ser uma referência ao filósofo Walter Benjamin, marxista morto em 1940. Este é o personagem que está sempre questionando as posições e decisões da revolução dos bichos. Sua passividade e a forma como ele enxerga o encaminhamento da revolução chega até nos questionar sobre nossa função na sociedade, que muitas vezes apenas criticamos sentados na cadeira e de frente para um computador.

Animação Revolução dos Bichos
Estamos apenas ouvindo os líderes… (Reprodução)

O final do livro é daqueles que mexem com o leitor e no mínimo o faz pensar. Por mais que a obra seja uma sátira e um desabafo de Orwell, ele ainda nos questiona qual é o nosso papel na sociedade e em qual posição estou, no comando da granja ou na massa de manobra de um porco?

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