Jules Breton e seu Realismo do campo

O realismo surgiu como forma de oposição ao Romantismo no final do século XIX e seu movimento artístico e literário predominou-se na França. E para entender o que é o realismo e porque ele se opões ao romantismo, vamos utilizar das obras de um dos seus expoentes, o pintor francês Jules Breton.

Talvez Breton não seja o principal artista realista que pisou em terras francesas. Gustave Coubert com certeza deve ter sido essa pessoa. Porém, muito já foi falado sobre ele e a Origem do Mundo, sua obra mais notável. Mas para quem não conhece, vale a pena pesquisar mais sobre o artista ou, quem sabe, não teremos um post sobre ele no futuro…

Realismo X Romantismo

Como o próprio nome define esses dois movimentos, temos de um lado o real e de outro o fictício, o romântico. O romantismo surge a partir de um movimento político, o nacionalismo. Podemos data-lo do final do século XVIII e assim, como o realismo, estamos falando sempre de Europa.

Para ter firmado bem os ideais nacionalistas, é preciso criar a imagem de líderes, embasar bem suas teorias de governo e formar uma ideia de nação em sua totalidade. Porém, sabemos que nem tudo pode ser efetivamente destacado, como por exemplo a miséria dos países europeus antes de suas revoluções.

Para ficar mais fácil de compreender, o romantismo é um movimento que se opôs ao iluminismo, aquele que pregava tanto pela razão e individualismo do ser humano. Estamos falando no romantismo de algo ideal e poético das coisas. É nesse período que surgem as famosas imagens revolucionárias, como a Liberdade Guiando o Povo de Eugène Delacroix.

La Liberté guidant le peuple de Eugène Delacroix (1830)
La Liberté guidant le peuple de Eugène Delacroix (1830)

O realismo surge mais ou menos um século depois justamente para se opor a tal movimento. Seus artistas queriam mostrar a veracidade das coisas, mostrar como elas realmente são. Por isso, é muito comum encontrar durante essa fase pinturas que retratam o cotidiano das pessoas, situações comuns da convivência humana e a vida no campo. Esta última é o que destaca Jules Breton no cenário realista e o que torna sua obra tão impressionante.

Doma de Jožef Petkovšek (1889)
Doma de Jožef Petkovšek (1889)

Se compararmos os dois últimos quadros aqui expostos, vemos claramente suas diferenças. Enquanto a primeira mostra uma mulher seminua, que representa a liberdade, guiando o povo em um cenário desolado, mas que transmite todos os ideais da Revolução Francesa, do outro lado temos uma cena pacata e do cotidiano, como uma fotografia tirada a qualquer momento.

Jules Breton

No artigo da Wikipedia em português sobre realismo, na aba de artes visuais não é possível encontrar o nome de Jules Breton na lista de principais artistas do movimento. Estão lá nomes como Édouard Manet, Gustave Coubert, Jean-François Millet e alguns outros.

Porém, Jules Breton se destaca por retratar cenas do cotidiano no campo. Sempre com um cenário espetacular, seus quadros parecem fotografias que você poderia encontrar em alguma página do Flickr.

O fato dos artistas realistas retratarem a vida em sua forma mais diária, mais banal, seria lógico que algumas “denúncias” seriam feitas. Talvez Coubert tenha se destacado por isso, já que além dele ser um dos principais artistas deste movimento, também foi um importante membro da Comuna de Paris, considerado o primeiro governo operário do mundo.

Por mais belas que sejam as pinturas de Breton, suas denúncias eram sutis, como por exemplo em um dos seus quadros mais famosos, o Le chant de l’alouette, em português: O canto da cotovia.

Le chant de l'alouette de Jules Breton (1884)
Le chant de l’alouette de Jules Breton (1884)

Usei algumas pinturas de Breton na minha dissertação de mestrado, umas delas foi Le Rappel des glaneuses, em português: O chamado das colhedoras.

Me encantou o sol ao fundo, característico da obra de Breton, com as mulheres todas claramente trabalhando duro e um homem, ao canto, vestindo as roupas do exército francês chamando por elas.

Le Rappel des glaneuses de Jules Breton (1859)
Le Rappel des glaneuses de Jules Breton (1859)

E quando vi esse quadro ao vivo no Musée d’Orsay, em Paris, me impressionou mais ainda. Suas pinceladas não eram pesadas, ou seja, não era possível enxergar aquele desnivelamento de tinta na pintura. Tudo estava harmonioso e equilibrado, assim como uma fotografia impressa. Além disso, o seu tamanho me surpreendeu. Por ser uma paisagem aberta, não poderia ser um quadro pequeno. Também não podemos considera-lo uma pintura enorme, mais uma prova do seu equilíbrio.

Um movimento realista

Talvez seja essa a principal característica das pinturas realistas: o equilíbrio. Nem sempre da imagem em si, mas da ideia. Tentar apresentar uma cena da realidade, por mais cruel que seja, é estar de acordo com que ela realmente é, ou seja, ela está em equilíbrio com a própria existência.

Por mais pacifica que sejam as pinturas sobre a vida no campo de Jules Breton, elas mostram o que significa aquela forma de existir, de viver a vida.

Talvez seja isso que estejamos precisando, atualmente, de uma arte realista que mostre para nós o que realmente acontece ao nosso entorno. Que seja fácil de compreender o que o outro vive e faz. Que possam apresentar a vida como ela é.

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