Vinhas da Ira: a diferença entre “eu” e “nós”

A história da família Joad representa a luta de todas aquelas famílias que são vítimas de injustiças sociais, descrita através da narrativa de John Steinbeck. Vinhas da Ira é um marco do século XX.

Em 1982, Kris Kristofferson escreveu a música “Here Comes that Rainbow Again”, que se refere a um dos trechos não narrativos de Vinhas da Ira. No trecho, John Steinbeck descreve a cena em que a garçonete de um café à beira da estrada, vende um doce mais barato para duas crianças migrantes. Dois caminhoneiros que assistiam a cena, comentam “Esses doces não custam 2 por 1, mas 1 por 2!”, ao que ela responde “E o que que vocês têm a ver com isso?”. Quando os dois caminhoneiros deixam o restaurante, eles dão à garçonete mais dinheiro do que haviam gastado. Ela chama sua atenção “Tem mais dinheiro aqui”, e eles respondem, “E o que que você tem a ver com isso?”. Na música de Kristofferson, ele canta no refrão:

“E a luz do dia se tornou pesada com trovões

E o cheiro da chuva soprou com o vento

Não é bem como um humano?

Lá vem aquele arco-íris de novo.”

 

Uma das célebres fotos de Dorothea Lange

A metáfora de Kristofferson sobre como o tempo é multifacetado, assim como seres humanos, perdura na essência da obra de Steinbeck. O célebre escritor americano traz no livro, que é considerado como sua obra-prima, o misto de sofreguidão e bondade que a miséria pode tirar das pessoas. A importância de conseguir realizar tal ilustração era tanta, que o próprio autor admitiu o quão custoso foi. Por vezes, ele chegou a questionar se conseguiria de fato concluir a obra. No diário que manteve durante a produção de Vinhas da Ira, “Working Days”, ele detalha suas dificuldades e seus medos. Mas, John Steinbeck não era imaturo. Para relatar em detalhes o que estava se passando, ele foi ver com seus próprios olhos. Residente da Califórnia, destino majoritário da migração, o autor foi visitar os campos em que os migrantes acampavam. Como relatado no livro, alguns, em melhores condições, eram governamentais, outros eram particulares e as condições eram precárias. Steinbeck sabia que possuía uma grande responsabilidade em reportar no seu romance os detalhes e as dificuldades daquele momento histórico de seu país, um dos mais dolorosos. O autor já havia sido contratado para reportar sobre tais condições e sobre a migração de maneira geral, em 1936. Ele publicou uma série de artigos intitulada “The Harvest Gypsies”, que vieram acompanhados das deslumbrantes fotografias de Dorothea Lange. Ele deixou isto claro em “Working Days”:

“Este deve ser um bom livro. Simplesmente, deve. Deve ser de longe a melhor coisa que já tentei realizar – devagar, mas claro, empilhando detalhe sobre detalhe até que uma imagem e uma experiência emerjam. Até que toda a coisa dolorosa emerja”.

Para estabelecer o dinâmico universo familiar dos Joads, a vivência com as famílias migrantes parece ter desencadeado no autor a identificação de um espírito que já se viu antes em Sobre Ratos e Homens. A irmandade e o companheirismo na obra de 1937, no entanto, eram simbólicos, já que não havia relação sanguínea entre Lenny e George. Em Vinhas da Ira, o autor foi além, colocando no centro do quadro uma família completa. O ambiente é tão familiar, que os personagens Ma e Pa sequer tem nome. Eles não precisam, eles são a mamãe e o papai. Assim como seus pais, Grandpa e Grandma. Eles são os pilares da existência das vidas subsequentes de seus filhos, que, por sua vez, lutam para lidar com a diversidade de estarem se aflorando para vida em época tão difícil.

Tom, o esperto e cuidadoso filho que se nega a aceitar injustiças, sacrificando-se contras estas. Noah, o primogênito, pensativo e quieto. A participação de Noah na história, com suas pouquíssimas falas e rápida ausência, é como uma espécie de nuvem que se faz presente constantemente na cabeça do leitor, mas não o incomoda. Simplesmente existe. Al, o adolescente boêmio que possui o ofício de mecânico e admira o irmão mais velho. Rose of Sharon, grávida e casada com o ambicioso marido, ela cresce ao longo do livro e acaba protagonizando o elemento de maior simbolismo do mesmo. E, fora do ambiente familiar oficial, o coadjuvante. Jim Casy é um ex-pastor que perdeu a admiração pelos céus. A falta de honestidade entre os homens, incluindo a sua própria, fizeram com que sua luta deixasse de ser pela catequização das almas. Mas por justiça para as mesmas.

Apesar de toda a devida aclamação que a obra recebeu, alguns críticos apontaram defeitos na mesma. O interessante, é que esses defeitos não eram particulares de Vinhas da Ira, mas comuns na bibliografia do autor. Um constante argumento contra ele, era de que seus personagens eram utópicos e forçadamente estereotipados para facilitar sua aceitação perante aos leitores. Por exemplo, os pobres eram sempre bondosos e solidários. Os ricos, sempre maldosos e cruéis. A crítica, principalmente a conservadora, aponta isso como propaganda e infantilidade. É, de fato, uma questão que vale a discussão. Não creio que tal questão se evolva no ponto de ser um erro ou não. É claramente uma opção esclarecida do autor. Ao focar-se na família Joad, o autor aplica uma lente de aumento na miséria da depressão americana pós-crash e ainda turbinada pelo desastre ambiental da “Dust Bowl”, uma tempestade de areia que chegou a durar uma década. O desatre devastou a agricultura do meio oeste americano, forçando um fenômeno sociológico: a migração em massa das famílias de agricultores para outros estados. Se há o exagero do autor ao delimitar vilões e heróis, diante da situação socioeconômica e dos abusos que estavam sendo feitos, percebe-se que esse exagero tinha um fim claro. Iluminar à elite americana o tamanho das graves injustiças que se passavam em seu país. Um tanto propagandístico de fato, mas compreensível. O livro foi publicado em 1939, quando não se consumia informações em 240 caracteres.

Migração e Experimentalismo

Os Joads migram mais de 2 mil quilômetros de Oklahoma até a Califórnia em uma viagem em um apertado caminhão. A própria interação com outros migrantes durante a jornada estabelece na narrativa o tom de como eram essas viagens, os riscos, os medos, as dificuldades. Steinbeck então resolveu colocar no livro um experimentalismo que alça a obra para outra dimensão. O autor alternou entre parágrafos contando as aventuras dos Joads e parágrafos descrevendo através de uma narração direta e agressiva o aprofundamento dessas dificuldades, desses riscos e desses medos. A voz dos parágrafos não-narrativos acompanha os Joads como uma espécie de locução de sofrimentos, um registro das consequências. Uma voz que berra, conflitando-se com a voz calma que narra o destino da família que claramente está fadada ao fracasso. Esses parágrafos também possuem um forte tom político. Em um trecho, há uma reflexão sobre o conceito de “eu” e “nós”. Ele escreve:

“Se você que é dono das coisas que as pessoas devem possuir, pudesse entender isto, você talvez pudesse se preservar. Se você pudesse separar causas de resultados, se você pudesse saber que Paine, Marx, Jefferson, Lenin, foram resultados e não causas, talvez você sobreviva. Mas isso você não pode saber. Porque a qualidade de ser dono, te congela para sempre no “eu”, e te corta para sempre do “nós”.

Um dos folhetos que iludiam os agricultores

O livro reporta que grande parte do sofrimento é causado pela ganância dos fazendeiros que se preocupam apenas em enriquecer às custas dos migrantes. É citado em vários momentos o folheto amarelo que havia sido distribuído nos estados aonde as colheitas já haviam sido atingidas e os bancos já começavam a tomar as casas dos pobres agricultores endividados. Os folhetos eram distribuídos com o intuito de atrair dezenas de milhares de trabalhadores para poucas vagas, forçando assim uma redução salarial forçada pela competição. Tal fato ilustra a perversidade da lógica capitalista que Steinbeck tanto critica. Paine, Marx e afins não são causa, são resultados. Mesmo assim, também se encontra a demonização das figuras rebeldes pelos próprios migrantes. Aqueles que ousam se rebelar contra aquele sistema, são classificados como “vermelhos”. Jim Casy, aos poucos vai liberando seu lado rebelde e enquadra entre vermelhos. Acaba sendo líder dos mesmos, até sua trágica morte.

Além das dificuldades em sobreviver e encontrar trabalho decentemente remunerado, os migrantes ainda têm que lidar com ódio. São vistos pelos locais como sub-humanos, sujos, pobres, ignorantes que aceitam trabalhar em troca de qualquer esmola. Fenômeno comum nos casos de migração (e imigração), o ódio dos locais estabelece-se e até apelidos pejorativos os migrantes ganham. Okies. Uma versão abreviada da palavra Oklahomans, que se refere aos cidadãos do estado de Oklahoma. Qualquer semelhança com outros fenômenos migratórios, não é coincidência. No Brasil, a migração nordestina para o sudeste, entre 1950-70, sofreu processo parecidíssimo, inclusive com os migrantes ganhando apelidos pejorativos usados até hoje pela elite brasileira, que se refere a pobres com termos como “baianos”.

A medida em que a jornada dos Joad vai se evoluindo, fica eminente ao leitor de que há um apocalipse nos esperando. Steinbeck escreveu que não queria que o leitor tivesse nenhuma satisfação em ler a obra. Era a realidade dura e não havia nada de prazeroso naquilo. Para o leitor, é entregue um certo ar de superioridade. Todos os indícios mostram que não haverá final feliz para a pobre família. Seu destino é o mesmo que o das outras. A miséria, a fome. Talvez eles voltem pra Oklahoma? Ou continuarão tentando a sorte na Califórnia? Nós, leitores, percebemos e nos fazemos essa pergunta, num desconfortável jogo em que se assiste aqueles pobres coitados dirigirem-se à um destino infeliz. Nós, letrados, empregados, devidamente assalariados. A superioridade também pode ser desconfortável. Quando Tom Joad assassina o homem que assassinou Jim Casy, a família perde seu pilar e só resta Rose of Sharon entre os filhos, já que Al também há de seguir seu caminho com sua noiva. Desesperada e fraca, a moça perde a vida que carregava em seu ventre. Ao invés, nasce a questão, haverá futuro? Questão essa que fica no ar, pois o mesmo leite materno serve como o “nós” que Steinbeck põe adverso ao “eu”. O homem velho e lutando pela vida, volta à pré-infância e alimenta-se do leite de Rose of Sharon. Talvez o futuro se encontrava em algum lugar do passado.

Religiosidade e Eternidade

Muitos críticos apontaram na obra inúmeras menções religiosas. A própria jornada da família Joad seria uma menção ao Êxodo do povo Israelita em direção à Terra Prometida, uma ironia sagaz. Um dos momentos do livro que faz alusão à Terra Prometida é justamente quando eles entram na Califórnia e de sua posição, conseguem ter uma visão panorâmica da terra. Uma espécie de Moisés no Monte Nebo.

De qualquer forma, o que faz uma obra ser eterna, é justamente a sua complexidade. Uma complexidade que ultrapassa o tempo. Uma espécie de navio inafundável que desliza sobre diferentes águas imponentemente. Os diferentes pedaços de terra por onde passa o analisam e o destrincham, mas sem ter o poder de desmontá-lo. É a eternidade em formato de objeto e a imaginação em formato de matéria. Nos resta procurar o fantasma de Tom Joad, como disse Bruce Springsteen, na música “The Ghost of Tom Joad” – outra homenagem de músicos à obra de Steinbeck. Em seu discurso final, para sua Ma, Tom a diz que sempre que houver sofrimento, pobreza, injustiças, ela poderá encontrá-lo e vê-lo, nos olhos da luta. Tom Joad é imortal.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *